O drama da assembleia


Queres entrar na assembleia da república e todos parecem levar tudo muito a sério: muita segurança, nada nos bolsos (só o BI!), detector de metais e polícias que apitam sempre que passam no detector de metais... Sobes umas escadas que te levam aos camarotes onde és público e não podes vaiar, nem principalmente aplaudir. Nem sequer te podes debruçar ou, ai ai, pôr os pés entre os pilarzinhos da balaustrada. Se lhes atirares com qualquer coisa (só se for o BI, ou um sapato, umas cuecas, a roupa toda, tu próprio!) tens direito a 3 anos de prisão. Aí percebes que não és tu o “público-alvo” daquele espectáculo, tu és apenas uma testemunha silenciosa. A acústica do sítio nem te permite seguir de perto todas as palavras proferidas pelos sagrados actores. O verdadeiro público são os microfones (ainda mais que as câmaras), os jornalistas estão presentes, num sítio especial só para eles e estão munidos de walkman, que até parece que estão a ouvir outra coisa qualquer e não o que está a acontecer naquela sala. Mas os das galerias, nós, não temos walkman, e quando parece que ouvimos a palavra democracia, era afinal tecnocracia...

O verdadeiro público, o que interessa, é o que está à frente da TV, ao lado do rádio, atrás do jornal. E digo isto como se não fossem os mesmos que vão assistir à AR! Mas estes são muito poucos, deputados estão lá para falar para as massas, sobre a gestão da massa e para ganhar muita massa. massocracia?

Quando olho, por decima da balaustrada, para aqueles actores, vestidos e penteados, engravatados, imagino a senhora que lhes lava a roupa e a passa a ferro. Não pelo lado comunista da coisa, mas pelo lado dramático. Interessamo-nos pelas coisas pelo seu dramatismo e é por isso que nos interessa a assembleia da república. –sim porque a AR em si não tem interesse nenhum!- Se não fosse a ideia/ilusão/crença que o que ali se faz é o que mais influencia os nossos destinos e se não fosse por todo o país pagar àqueles artistas para representarem o seu papel, e, sobretudo, levarem-no a sério, aquele era um espectáculo sem sucesso. Porque o que dizem é chato. Contudo, são excelentes actores (uns mais que outros), porque se o não fossem não conseguiríamos aguentar aqueles longos monólogos, ainda que moderados por uma máquina que conta os tempos pelo presidente. Monólogos daquele tamanho, não digo no teatro, mas no cinema eram vaiados. Só por causa do tamanho, logo, ainda antes do conteúdo. Eram vaiados. Portanto eles são mesmo excelentes actores – ou então o público é mais exigente no cinema do que na assembleia. Talvez porque sabe/acredita/acha que o que se passa no cinema não influencia em nada os nossos destinos.

E o amor/dedicação/paciência da senhora que passa as roupas do doutor a ferro? Não influencia o destino de ninguém? Pelo menos acho que é para isso que lhe pagam.

1 comentário:

Anónimo disse...

gostei muito desta reflexão!