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Snailstag

'Hours of Joanna the Mad', Bruges 1486-1506 (BL, Add 18852, fol. 305v)

arrumações de mails... poemas antigos.


I
Cá é noite preta
dormente
reflexos de candeeiros fiéis
nos vidros das janelas fechadas corridas
e murmúrio das ondas
desabafadas.
Grilinhos tilintam as asas
e duas ou três luzes
dentro das janelas
revelam
olhos abertos
por trabalho amor ou arte.
Lá é estonteanto o calor e o sol
pernas untadas
repousam no quente da areia
e anseiam pelo
por pouco adiado banho
bilhetes de avião
levaram-nos até lá
para que agora
quando aqui é noite
se espraiem pelas praias
e se desviem da sombra das palmeiras
todas estas sensações
díspares e distantes
em características e espaço
acontecem ao mesmo tempo
no mesmo preciso instante.
e o que significa isso?
significa um tudo e um nada
porque é absoluto o facto
mas pode até ser encarado com indiferença
ou com ignorância
só que surpreende quem nisso repara e pensa

II
anda cá mau tempo
cobre-me a figura
perpassa-me por cima
como se houvesse
razão para o meu andar
assim sem dor nem
razão de sobra
mas de um cinzento
ventoso assim
bem da tua cor e fisionomia
anda cá mau tempo
defender-me dos solarengos
num dia como o de hoje


Minha passagem para o breve breve instante da loucura

Como pode haver tanta emoção no primor rígido e intacto desta figura?
Como se os sentimentos dele só existissem na voz e no punho fechado?
E tudo o que daí sobra fizesse mover uma orquestra inteira?
Acho que ainda gosto mais desta do que da "Estrela da Tarde".



O contexto


Se calhar, recordarmos o passado com amor (tenha sido bom ou mau)
é uma estratégia da VIDA
para nos fazer contar histórias aos nossos descendentes
e eles ficarem mais contextualizados. 
É que o contexto é muito útil à sobrevivência.

Recolhas


"Olhei para o sol e vi que não tinha cara, olhei para a lua e vi que tinha olhos e boca." 

Julião Agostinho, dia 11 de Fevereiro de 2012, Biblioteca de São Roque do Pico

recolha de Fernando Nunes, poeta aqui 

http://atenasgavetascresceanis.blogspot.pt/

O Experimentar


ouvir e comprar o disco aqui

talvez

talvez a partir de agora as pessoas procurem fazer o que gostam, em vez do que o dinheiro que tinham lhes mandava fazer

multi culti

uma pessoa percebe que o mundo tá mesmo misturado (e desde há muito tempo) quando pensa que no hemisfério sul há "latinos" e "índios"...

Expo 98


Comprei-a. 
Estava numa montra 
aqui em Ponta Delgada.

200$ por 1,5€
ainda não a tirei do pacote.

Em fundo, uma árvore de Goiabão

A Aposta


Freguesia da Ponta do Pargo, Calheta

Vocês sabem o que é a felicidade? Anda muita gente à procura dela, mas nem toda a gente a encontra. No entanto conhecia-se no Porto do Moniz um casal - a Tia Narcisa e o Tio Norteiro - que chegaram à muita idade sem terem tido uma zanga, por pequena que fosse. Era o casal mais feliz e amigo de toda a ilha. De toda a ilha? Ora, de todo o mundo!

Felizes eram, mas também pobres, muito pobres. E foi preciso tomar uma decisão importante para resolver o problema da pobreza. Foi preciso mesmo vender a vaquinha que eles tinham alimentado durante muito tempo. E lá foi o Tio Norteiro para os lados da Ponta do Pargo procurar comprador.

Ali chegado, um pargueiro, armado em engraçado, virou-se para o Tio Norteiro e perguntou-lhe:
- Quer trocar essa vaca por uma cabra?
E o Tio Norteiro:
- Ora, então não hei-de trocar?

E fez-se a troca, mais adiante apareceu um pastor que lhe trocou a cabra por uma ovelha. E não tardou que aceitasse trocar a ovelha por um galo. Depois, apertando-lhe a fome, vendeu um galo e comprou um pão. Regressou então a casa. Estava já o Tio Norteiro perto de casa e encontrou um vizinho que lhe perguntou:
- Então, ti Norteiro, fez bom negócio?
- Deixa-me lá, não trago um pataco furado!
E contou o que se passara. Logo o vizinho comentou:
- Ai, a ti Narcisa vai dar-lhe uma malha!
- Uma malha?! - Admirou-se o ti Norteiro.
- Com tanta asneira que fez, aposto o dinheiro da vaca em como a Tia Narcisa se vai zangar a valer!
- Bem, não sei. Como insistes, aceito a aposta, anda daí.

E à chegada a casa, o vizinho assistiu à cena:
- Então, sempre vendeste a vaca? -  perguntou a Ti Narcisa.
- Troquei-a por uma cabra.
- Foi o melhor que fizeste. Dá leite e não dá tanto trabalho.
- Mas troquei a cabra por uma ovelha.
- Ainda melhor, pois dá leite e lã!
- Olha troquei-a depois por um galo.
- Pronto, já temos com que acordar para a missa de domingo!
- Mulher, mas deu-me a fome, vendi-o e comprei um pão para comer.
- Fizeste muito bem! Não ias ficar com fome e com um galo na mão!
E o vizinho, admiradíssimo com a bondade da Ti Narcisa, de bom grado pagou a promessa e andou a contar a história a toda a gente!

em "Contos Populares das Ilhas da Madeira e do Porto Santo", José Viale Moutinho, editora Nova Delphi

Rabo de Peixe


Hoje fui a rabo de peixe filmar rabo-peixenses e foi lá que descobri as pessoas mais simpáticas e dedicadas do mundo inteiro. Se virem jogos de futebol no campo de Rabo de Peixe, reparem nos apanha-bolas. Têm coletes que dizem "Wembley Stadium", porque foi o Burrica que os trouxe de lá quando viveu em Inglaterra, durante quatro anos. Ele não os comprou, mas ofereceu-os todos :)

A "cataplasma"

Novembro, 17 (1838)
A maneira de comer a bordo de um navio fruteiro de S. Miguel em dias de mau tempo, desconserta tristemente quem estiver habituado ao uso de talheres de prata.

A expressão habitual designativa do almoço, do jantar, do chá e e da ceia é "ir buscar a comida", perífrase que à maravilha define o cerimonial em uso.

O compartimento em que tal obrigação se desempenha é suficientemente amplo para quatro pessoas, e tem, à guisa de mesa, uma cómoda quadrada, provida de asas. Devido ao tempo borrascoso que tem feito, torna-se necessário, antes de pôr a mesa, pregar-lhe a "cataplasma" (como diz o capitão), isto é, torcer em longo rolo qualquer peça de vestuário desgarrada que por ali se encontre à mão, um casaco impermeável, ou capote de lã, p. exemplo; depois, dispô-lo em ziguezague sobre a mesa, cobrindo o rolo com um pedaço de vela, a modo de toalha, e formando a sotavento uma grande protuberância para proteger a loiça no caso de balanço forte. Finalmente, a fim de manter a "cataplasma" no devido lugar, é esta fixa por um pedaço de fio de corda enlaçado por sobre a mesa, e atado aos puxadores das gavetas.

O despenseiro, designação pomposa dada a um rapaz sebento, enfarruscado e jovial, prepara o almoço, apertando entre as anfractuosidades da "cataplasma" as chávenas, os pires e as tijelas, para evitar que caiam e se depedacem; enche de biscoito o cabaz do pão e coloca-o firme no meio da mesa, escorando-o com um bule e com pão duro; em seguida, entala nos sítios convenientes o manteigueiro de manteiga de Cork, um bocado de carne salgada, um açucareiro de açúcar mascavado, enfeitado com torrões da mesma substância branca; arremessa para a mesa um molho de colheres de estanho e outro de garfos e facas novos e embotados e depois retira-se para preparar o chá.

Suponhamos que o chá está pronto e que o bule ficou estivado com o bico para barlavento; tanto que o encarvoado moço de novo aparece com uma caçarola de ovos, enorme vaga invade o navio; este entra em balanço forte para sotavento e com o balanço tentamos segurar as xícaras aos pires, segundo-se porém indescritível caos entre todos os utensílios indispensáveis ao almoço: o bule extravasa o chá por sobre o manteigueiro; entorna-se o leite; o pão fica ensopado; e porque deixaram a escotilha aberta, desabam sobre as nossas cabeças vários baldes de água dos grossos mares entrados a bordo. O capitão pragueja, o criado põe de lado os ovos, em busca do balde e da rodilha; os passageiros levantam os pés para se livrarem da água salgada que já encharcou os mochos, as botas e as extremidades dos capotes e continua a enlamear e a gorgolhar no sobrado do camarote; o homem do leme resmunga, rabujento, - "Sim, senhor" - à ordem ainda mais azeda do capitão - "Aguenta-o firme".

Ao jantar os preparativos são mais ou menos os mesmos do almoço.

O capitão não era nenhum gastrónomo.

A carne salgada é trazida numa celha de madeira até à porta da sala de jantar, onde a cortam em duas partes iguais.

Metade volta para cima pela escotilha na mesma celha para consumo da tripulação; a outra metade punha-se em fundo tacho para a mesa da câmara. Vinha então o infalível prato de bordo, de couves com gordura, cenouras esbranquiçadas e batatas com casca. Postas todas as iguarias na mesa, seguia-se a tarefa de averiguar o paradeiro do capitão. Chegado este, quando a comida começava já a arrefecer, verificava-se que não estavam na mesa nem os garfos, nem as facas e que também faltava a mostarda. E porque o saca-rolhas ficara esquecido na gaveta, tornava-se necessário desmanchar a "cataplasma", levantar a mesa e voltar a pô-la.

Arrancada a rolha, tiravam-se os copos do armário, ainda com os restos do vinho da véspera, a secar. "Cozinheiro, cozinheiro!" e os copos eram entregues pela escotilha com a recomendação: "não se lavam agora com água doce", aviso este que o forte gosto a água salgada na borda do vidro logo indicava haver sido fielmente cumprido. A ceia era como o almoço repetido à luz das velas.

................

Joseph e Henry Bullar em "Um inverno nos Açores e um verão no vale das furnas" traduzido do inglês por João Hickling Anglin - Edição do Instituto Cultural de Ponta Delgada - Ilha de S. Miguel - Açores, 1986

Inquisição

Ainda existe este sentimento, entre nós. Resquícios do anti-semitismo?

"A suspeita de cristã-novice recaía, com frequência, sobre quantos alcançavam sucesso nos seus empreendimentos, privilegiando-se, socialmente, aqueles que mantinham estilos de vida ociosos e perdulários contrários à mentalidade capitalista emergente."

in "Indiferentes à Diferença - Os Judeus nos Açores nos sécs. XIX e XX" de Fátima Sequeira Dias

depois das renováveis, as perenes
























separo embalagens para reciclar
e com isso gasto tempo e energia
que podia gastar a escrever manifestos
ou a fazer filmes sobre reciclar.

qualquer acção é geradora
umas numa direcção outras noutra
a preguiça é um exemplo de energia que gera situações
apesar de parecer que não gera nada de nada.

há vários tipos de energias geradoras
umas geram através do esforço: transformam
outras geram através do não esforço: limitam-se a permitir a transformação
outras ainda conseguem gerar inversamente: impedindo a transformação, levando-a por novos caminhos

por isso
o tempo é energia
o movimento é energia
um riso é energia
ou um grito
um choro
uma depressão
uma doença
uma viagem
um castigo
um trabalho
uma sesta
um abraço
uma cópula
uma flor
um som
um caminho
um campo
uma cidade
um buraco
enfim
um enfim...

mãozinhas de ouro

o Julião ainda não diz nenhuma palavra reconhecível
nem deu mais do que um ou dois passos sem ajuda
e vai fazer um ano no dia 26 de Fevereiro.



Mas não tem estado a desperdiçar o seu tempo.



ele já sabe
carregar no comando, enquanto olha para a tv
acender e apagar a luz dos candeeiros da sala

e... desenhar!


(foi a primeira composição que ocupou o quadro todo)


é um rapaz que gosta de manipular objectos...


aos mais ansiosos:
não estamos a descurar os deveres principais do Julião,
falamos muito e andamos muito com ele.
mas ele é que escolhe o que lhe interessa mais e quando.

histórias da minha vida (1)


















Verifico com gáudio que, aos 23 anos, já reúno no meu acervo um considerável número de histórias que dão que pensar. Que a mim me dão que pensar. Quero contá-las.

Esta passou-se em Bordéus (algumas das minhas histórias são passadas em lugares longínquos).

Eu e uma amiga minha dinamarquesa (mais internacionalizações...) passámos uma semana de férias entre duas semanas de trabalho árduo nas vindimas. Foi uma semana agradável em que não tivémos que nos esforçar, tinhamos um apartamento à nossa disposição - emprestado - e dinheiro na carteira ganho da forma mais saborosa - trabalhando com suor.

Tentámos visitar museus mas encontrámos uma loja em liquidação completamente total - nem eu nem ela gostamos de gastar muito dinheiro em roupa, mas como qualquer outra rapariga até gostamos de ir às compras. Entrámos e andámos por lá a ver coisas, cada uma para seu lado e logo a seguir encaminhámo-nos uma para a outra a rir:
- Olha estes calções custam... 30cts!
- E esta camisola custa 70cts!!
Uma loucura. Havia montões de roupas e montões de mulheres.

Comprámos várias coisas mas isso não interessa para nada. Nada do que eu contei até agora interessa para alguma coisa. O que conta para alguma coisa é o que eu vou contar agora:

De entre as mulheres que compravam havia várias indianas. De entre as roupas à venda havia uma secção de vestidos de noiva. Vimos mulheres indianas a experimentar vestidos de noiva em liquidação total e a comprá-los por 20euros. ISSO A NÓS FEZ-NOS MUITA CONFUSÃO.

Como é que a duas raparigas que não ligam assim muito a roupas nem, penso eu, a casamento de sonho com vestido feito à medida e que custam várias centenas de euros, nos faz impressão uma cena daquelas? Na altura perguntei-me. Agora respondo-me.

O que faz confusão é a misturada. Indianas a vestir vestidos de casamento de estilo ocidental mas comprados em saldo com o tamanho disponível, só porque são do estilo que elas sonhavam ter e que para nós ocidentais verdadeiras não só são feios como o facto de serem adquiridos assim ainda lhes retira o último resquício de encanto. Para nós está tudo trocado. Para elas é um sonho ao alcance das suas carteiras. Quando nós sabemos que na Índia há casamentos verdadeiramente de sonho.

É que isto da trocas interculturais é mesmo lindo. Andamos mas é todos apaixonados uns pelos outros, ocidente pelo oriente e o oriente pelo ocidente. Mas tal como todos os apaixonados somos muito toscos e muito trapalhões nesta nossa aproximação. O fascínio é grande.