Voltar à terra onde se cresceu, mesmo no meio da chuva.
Redondo
Voltar à terra onde se cresceu, mesmo no meio da chuva.
Ontem fiz anos.
Folhas, flores, frutas de ouro
E eu, açorianinha emprestada,
dizia "em tipo de gozar"
que desde que aqui vivia
na limpidez/bruma (é à vez)
o continente me parecia todo bege.
Aqui o mar e céu azuis
a pedra preta
as plantas verdes.
azuuul
preeto
veeerde
e chegava lá,
era logo do avião que se via
que aquilo era tudo bege.
Até o alcatrão e o branco das casas amarelecia de pó.
Mas foi com a canção de há 2 posts atrás que se me fez luz.
Não é bege, é de ouro.
O pó não é poeira
é feldspato. É mica.
Pó de fada.
"Meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de ouro"
Saudade
Aqui está tão bem expressa
aquela saudade que tenho sempre de uma terra que em pormenor é o Redondo, a média escala o Alentejo, e em maior, o continente. Até Espanha está incluída. Enfim, o que me falta é o sequeiro...
O sequêro....!
Amália a cantar José Régio:
Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro.
Vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.
Os cartazes da CDU
Hoje vi aqui na Horta (no largo do Infante) o cartaz de um candidato da CDU, com a parte de baixo ao sol quase poente e a parte de cima à sombra de uma árvore, tal como são as sombras das árvores que deixam passar o sol entre as folhas. Essa imagem aqueceu-me o espírito. Mas ia de carro e logo pensei noutras coisas.
Tudo bem gravado dentro do meu sentido
Adeus Rua Sá Carneiro
Adeus Rua de Mourão
Adeus Largo adeus Igreja
Do Sagrado Coração
I
Adeus Rua do Rossio
Adeus Sociedade
Adeus Museu de Antiguidades
Tudo feito com muito brio
Adeus Fonte do Rossio
Adeus Travessa do Carneiro
Ainda digo adeus primeiro
Ao antigo lavadouro
Despeço-me com muito amor
Adeus Rua Sá Carneiro
II
Digo adeus à taberna
Do Francisco Carrilho
Seguindo o mesmo trilho
Adeus Café Lanterna
Falando de coisas modernas
Tal como elas são
Tenho a preocupação
Não me esqueça alguma coisa
Adeus café da Lousa
Adeus Rua de Mourão
III
Adeus padaria
Adeus Rua da Calçadinha
Esta ideia é minha
Adeus lojas e mercearias
Quando chegar esse dia
Que por certo ninguém deseja
Aqui estar para que se veja
Eu lanço este retrato
Adeus café Regato
Adeus Largo adeus Igreja
IV
Adeus Rua das Palhotas
A da Estrela fica defronte
Adeus Rua da Fonte
Ao largo tem uma horta
Para nós pouco importa
Nesta mesma ocasião
Aceitamos esta lição
Tal como se diz
Adeus Igreja Matriz
E a do Sagrado Coração
V
O que aqui não foi citado
Por certo não está esquecido
Tenho tudo bem gravado
Dentro do meu sentido
João Chilrito Farias (poeta popular), Luz, 1997
em "Breviário Alentejano" de Francisco Martins Ramos
Editora Caleidoscópio
as saudades da terra

a terra não é como as pessoas.
não dá para telefonar para ela
e matar saudades brandamente
só se comunica com uma paisagem
estando nela.
sentindo-a com tudo o que
temos de sensível.
amar uma terra é coisa dura
amar uma nova terra é sempre aumentativo
mas dividir o nosso amor por várias terras
é ingrato.
ainda não se pode estar em dois lugares ao mesmo tempo
e aí net não serve para nada.
