O contexto


Se calhar, recordarmos o passado com amor (tenha sido bom ou mau)
é uma estratégia da VIDA
para nos fazer contar histórias aos nossos descendentes
e eles ficarem mais contextualizados. 
É que o contexto é muito útil à sobrevivência.

Cor e luz

Chagall

Somos o que fazemos?


Somos o que fazemos? Hoje em dia os psicólogos gostam muito de uma coisa que é terapia comportamental. Deve ser porque somos o que fazemos. Porque sentimos o que somos quando fazemos. Já nem somos o que temos, porque todos temos de tudo, mais ou menos. Nem somos aquilo em que acreditamos, porque já não acreditamos em nada. Tal como também não somos o que sabemos, porque isso não traz felicidade a ninguém. E sejamos o que sejamos, temos é que ser felizes.

É resumir a vida ao ao presente. O que fazemos em cada momento e o que sentimos quando o fazemos. Somos o que fazemos. A memória deixa de ter importância. A experiência acumulada, as frustrações, também. Sonhos?
Mas talvez seja porque nos queremos equilibrados no dia-a-dia e porque para isso temos que esquecer tudo e concentrar-nos no caminho. "Keep calm and carry on" frase que ressuscitou dos tempos da 2ª Guerra e voltou a estar na moda.

Somos o que fazemos e temos que fazer coisas com nomes. Passear, dormir, comer, conversar. Trabalhar. Que nome darei ao que estou a fazer? Escrever, pensar, reflectir, criticar, exprimir-me, acalmar-me, conhecer-me. Que vou fazer a seguir? Alguma coisa, algo com nome, algo que exista. Nem que seja "pensar". Mas haja nome, faça-se alguma coisa. "Nada" é que não.




O Carnaval


O Carnaval!

Lembramo-nos dele!

Era a agitação da vida, o riso, a folia, a gargalhada rubra e pletórica. passava por nós com os lábios vermelhos, juvenil e hilariante, malcriado com a Irreverência e implacável com a Justiça, acotovelando-nos, alfinetando-nos, esmurrando-nos as ventas com dois ovos, chicoteando-nos os nervos com a ironia de um epigrama, fazendo de nós, enfim, um boneco com quem se brinca, entre justo e cruel, entre alegre a verdadeiro, mas sempre com graça, com bom humor, com "verve", com vida!

E tudo se desculpava... Se era Carnaval!

Lembramo-nos dele!

Quando éramos pequenos, aqui há quinze ou dezasseis anos, como ele nos parecia divertido, sanguíneo, esplendoroso! Agora ouvia-se uma graça que nos irritava, logo era um dito picante que nos fazia cócegas, mais logo uma alusão de espírito, esfuziante e luminosa: enfim, com narizes de Cirano e espadalhões de D. Quixote, com batinas de tartufos ou com a barriga de Sancho Pança, era uma coisa com espírito, com alma, com vida - que raio! - que merecia o apoio de um sorriso e o aplauso de uma gargalhada!

Em comparação com o de outro tempo, como é triste e enjoativo o Carnaval de agora!

Nem já sabemos rir…

Isto, hoje, é a Alegria com clorose e albuminúria, é o humorismo com pedra nos rins, é o Riso sofrendo de anemia e a exigir pílulas Pink e conforativos ferruginosos. 

O nosso humor está a pedir casa de saúde e a nossa verve exige banhos do mar e sanatórios de montanha!

Ainda se vêem, sim, pierrots e chuches, mas tudo se move aí pelas ruas como por um dever de ofício, uma mascarada é um serviço que se tem a fazer e já se vai a um baile com  mesmo ankoo e o mesmo fastio com que se vai para a repartição.

Neste momento passam máscaras, lá em baixo, mas tristes, graves, sorumbáticas, com a correcção de directores-gerais e o aplomb de conselheiros de estado, marchando a passo lento, como Cristo para o Calvário, sem o estouvamento de uma graça, sem o delicioso estremeção de uma asneira, tão triste e tão graves, as máscaras! Dir-se-ia que vão para algum enterro, tal é a frieza circunspecta do seu semblante e o aperto que lhe causam as botas de verniz!

São tão tristes, as máscaras!

Agora passa um casamento… São duas crianças, os noivos. Ele de casquinha muito justa, bota de polimento, gravata branca, um chapéu alto em miniatura, e ela de seda azul, com uma flor de laranjeira na cabeça! E vão tão solenes, tão compenetrados no seu papel - coitadinhos dos pobres anjos! - que parece que vão efectivamente dirigir-se ali à Sé para se unirem para sempre, depois de abençoado o enlace por um cura muito feio, dizendo muito latim e cheirando muito a rapé! E aquela coroa de laranjeira, naquela cabecita mimosa de seis anos, ficava tão bem, e era tão simbolicamente justa, que pensámos no Carnaval dos outros 363 dias, quando tantas, a sério, levam aquela clássica flor com muito menos direitodo que, num dia de Entrudo, a levar a brincar, naquela criancita rosada e muito fresca!

E lá passa agora um homem de chifre, e de rabo muito comprido… Ih! pai do céu, como ele vai feio assim, e como ele é caricato! Escolheu este dia do Entrudo para manifestar as virtudes domésticas e os altos feitos familiares. Durante todo o ano, é o que sabem; é, porém, neste dia de Carnaval, chuvoso e triste, nebuloso o céu, merencória toda a gente, que ele, com mais umas gotas de álcool no papo e um pouco mais de genebra no estômago, se apresenta tal qual é, com grandes chifres agudos - o pulha! -, com o comprido rabo a sair-lhe do manto - o desavergonhado!
Mais adiante, vai um escritor que se mascarou de mulher, e que só assim é verdadeiro, e mais além vemos um político que se veste de palhaço nestes três dias para fazer supor que o é menos nos outros dias do ano!

Como é carnavalesca a vida, e como é triste o Carnaval!

São tristes as máscaras! Dá vontade de lhes esmurrar as ventas, os estafermos!
E nesta coisa sem valor, nesta maçada insuportável, sem a heroicidade de uma crítica justa ou o arrojo de uma alusão humorística, que é incapaz de fazer abrir a boca num riso esfuziante ou de nos apressar a digestão do pato com arroz, gastam-se rios de dinheiro, meses de paciência, oceanos de mortificações!

E para quê? Para andarem nessa sensaboria, embirrativas, umas tristíssimas máscaras, clamando, imperativas e categóricas:
- Então, não riem? Achem-nos graça, com a breca! Riam de nós, com mil demónios! Batam-nos palmas, ainda que para isso façam algum sacrifício! 
E ninguém se ri. Ninguém acha graça. Ninguém bate palmas. A todos acomete o mesmo nojo, concordando todos que é uma sensaboria insuportável. 

De vez em quando passa no ar um cheiro a sulfídrico… É a decomposição. 
Sim; de ano para ano, o Carnaval some-se, anémico e clorótico, e cedo há-de vir o tempo em que ele deixará de existir. A religião acabou quando de uma coisa grave e séria passou a ser um pretexto de namoros e uma maneira agradável de passar o tempo. O Carnaval também acabará, visto que de uma coisa divertida e burlesca, que de um parêntese alegre na comédia triste da vida, passou a ser o mesmo pretexto de namoros, e um meio estúpido para os namorados atirarem flores e confeitos, os néscios!

Pela nossa parte, desejamos que essa morte venha breve, muito breve e que não mais se repita, as cenas destes três dias enjoativos, em que a alegria redunde em tristeza, à força de ser fictícia, em que se ri em contra-regra, em que se tem graça com ponjó ao pé, em que se palheceia e se fazem trejeitos para que confundamos os gestos de meia dúzia de fantoches articulados com a deliciosa sátira do Riso e a divina explosão da Força!

Divertimo-nos mais nos outros 363 dias, vendo essas máscaras que para aí se movem, em diferentes travestis, mas todas visando ao mesmo fim: viver, vencer, à custa da vida e da felicidade dos outros. 
Há o político que agita a sua palavra de honra como um pierrot agita os seus guizos de Carnaval. 
Há o ditador que se mascara de liberal, e o tirano que põe um travesti de democrata.
Há o espírito criativo que despeja uma bolsa numa manifestação exterior e que é incapaz de acudir à família necessitada que lhe mora ao pé da porta. 
Há o homem generoso, grande patriota e grande católico, que nos fala constantemente em religião, deixando morrer à fome a pobre mãe velhinha. 
Há os Júlios de Vilhena falando na sagrada liberdade e os Pimentéis Pintos consorciando-se com a velha Democracia … 

Tudo isso é um Carnaval burlesco, infinitamente mais alegre e infinitamente mais proveitoso que esse Carnaval que para aí se ostenta, na impotência da velhice, chéché de 80 anos a precisar de cantáridas, pálido e sensaborão, sem o chicotear nervoso de um dito, nem a algazarra penetrante de uma graça…

E ao ver os gestos graves, medidos, calmos ou a indignação colérica e sombria dos políticos de ofício, ao vê-los no resto do ano levantar os braços, agitar os membros pedindo justiça, falando em liberdade, clamando por vingança, é então que nos faz vontade de dizer, como vós, os amigos do Carnaval:
- Bem te conheço, ó máscara, bem te conheço!

Raúl Proença
A vanguarda. Lisboa (22 Fev.1909), p.1

Claves regni caelorum

Illumination from a copy of Li livres dou santé by Aldobrandino of Siena
British Library manuscript Sloane 2435, f. 44v.

On the raft


It's lovely to live on a raft. We had the sky up there, all speckled with stars, and we used to lay on our backs and look up at them, and discuss about whether they was made or only just happened. Jim he allowed they was made, but I allowed they happened; I judged it would have took too long to make so many. Jim said the moon could a laid them; well, that looked kind of reasonable, so I didn't say nothing against it, because I've seen a frog lay most as many, so of course it could be done. We used to watch the stars that fell, too, and see them streak down. Jim allowed they'd got spoiled and was hove out of the nest.

É maravilhoso viver numa jangada. Tínhamos todo o céu ali em cima, tudo cheio de estrelas, e costumavamo-nos deitar de costas e olhar para elas, e questionarmo-nos se tinham sido feitas ou se tinham apenas aparecido. Jim dizia que achava que tinham sido feitas, mas eu achava que tinham aparecido. Achava que teria demorado demasiado tempo a fazer tantas. Jim dizia que podia ter sido a lua a pô-las; bem, aquilo parecia razoável e não o contrariei porque já vi um sapo a pôr muitos outros, por isso é claro que podia ser feito. Também costumávamos ver as estrelas que caíam e víamo-las riscar o céu. Jim dizia qe deviam estar estragadas e tinham caído do ninho.

Huckleberry Finn - Mark Twain

Recolhas


"Olhei para o sol e vi que não tinha cara, olhei para a lua e vi que tinha olhos e boca." 

Julião Agostinho, dia 11 de Fevereiro de 2012, Biblioteca de São Roque do Pico

recolha de Fernando Nunes, poeta aqui 

http://atenasgavetascresceanis.blogspot.pt/

O Experimentar


ouvir e comprar o disco aqui

talvez

talvez a partir de agora as pessoas procurem fazer o que gostam, em vez do que o dinheiro que tinham lhes mandava fazer

Θυρεοειδής?


De há uns tempos para cá tenho sentido estranheza em estar viva. 
Assim o tipo de estranheza que dá quando dizemos muitas vezes uma palavra e ela nos soa ridícula e vazia de sentido. A vida tem-me parecido assim, embora não seja bem vazia de sentido. Não sei se é a isto que se chama "crise existencial". Não procurei este sentimento, não o provoco em mim, aliás, às vezes prefiro evitá-lo. Não é triste. Não é glorioso. Já foi mais assustador. Agora é só impressionante. Ou para usar uma palavra melhor: incrível. A vida tem sido incrível, não pelo bem ou pelo mal que faz acontecer, mas por si própria. E não entendo como alguém, incluindo eu, pode ter certezas...e tantas.


O amor nunca acabará.

multi culti

uma pessoa percebe que o mundo tá mesmo misturado (e desde há muito tempo) quando pensa que no hemisfério sul há "latinos" e "índios"...

Folhas, flores, frutas de ouro

E eu, açorianinha emprestada,
dizia "em tipo de gozar"
que desde que aqui vivia
na limpidez/bruma (é à vez)
o continente me parecia todo bege.

Aqui o mar e céu azuis
a pedra preta
as plantas verdes.

azuuul
preeto
veeerde

e chegava lá,
era logo do avião que se via
que aquilo era tudo bege.

Até o alcatrão e o branco das casas amarelecia de pó.

Mas foi com a canção de há 2 posts atrás que se me fez luz.

Não é bege, é de ouro.
O pó não é poeira
é feldspato. É mica.

Pó de fada.

"Meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de ouro"

Expo 98


Comprei-a. 
Estava numa montra 
aqui em Ponta Delgada.

200$ por 1,5€
ainda não a tirei do pacote.

Em fundo, uma árvore de Goiabão

Saudade

Aqui está tão bem expressa
aquela saudade que tenho sempre de uma terra que em pormenor é o Redondo,  a média escala o Alentejo, e em maior, o continente. Até Espanha está incluída. Enfim, o que me falta é o sequeiro...
O sequêro....!

Amália a cantar José Régio:

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro.
Vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.


A Aposta


Freguesia da Ponta do Pargo, Calheta

Vocês sabem o que é a felicidade? Anda muita gente à procura dela, mas nem toda a gente a encontra. No entanto conhecia-se no Porto do Moniz um casal - a Tia Narcisa e o Tio Norteiro - que chegaram à muita idade sem terem tido uma zanga, por pequena que fosse. Era o casal mais feliz e amigo de toda a ilha. De toda a ilha? Ora, de todo o mundo!

Felizes eram, mas também pobres, muito pobres. E foi preciso tomar uma decisão importante para resolver o problema da pobreza. Foi preciso mesmo vender a vaquinha que eles tinham alimentado durante muito tempo. E lá foi o Tio Norteiro para os lados da Ponta do Pargo procurar comprador.

Ali chegado, um pargueiro, armado em engraçado, virou-se para o Tio Norteiro e perguntou-lhe:
- Quer trocar essa vaca por uma cabra?
E o Tio Norteiro:
- Ora, então não hei-de trocar?

E fez-se a troca, mais adiante apareceu um pastor que lhe trocou a cabra por uma ovelha. E não tardou que aceitasse trocar a ovelha por um galo. Depois, apertando-lhe a fome, vendeu um galo e comprou um pão. Regressou então a casa. Estava já o Tio Norteiro perto de casa e encontrou um vizinho que lhe perguntou:
- Então, ti Norteiro, fez bom negócio?
- Deixa-me lá, não trago um pataco furado!
E contou o que se passara. Logo o vizinho comentou:
- Ai, a ti Narcisa vai dar-lhe uma malha!
- Uma malha?! - Admirou-se o ti Norteiro.
- Com tanta asneira que fez, aposto o dinheiro da vaca em como a Tia Narcisa se vai zangar a valer!
- Bem, não sei. Como insistes, aceito a aposta, anda daí.

E à chegada a casa, o vizinho assistiu à cena:
- Então, sempre vendeste a vaca? -  perguntou a Ti Narcisa.
- Troquei-a por uma cabra.
- Foi o melhor que fizeste. Dá leite e não dá tanto trabalho.
- Mas troquei a cabra por uma ovelha.
- Ainda melhor, pois dá leite e lã!
- Olha troquei-a depois por um galo.
- Pronto, já temos com que acordar para a missa de domingo!
- Mulher, mas deu-me a fome, vendi-o e comprei um pão para comer.
- Fizeste muito bem! Não ias ficar com fome e com um galo na mão!
E o vizinho, admiradíssimo com a bondade da Ti Narcisa, de bom grado pagou a promessa e andou a contar a história a toda a gente!

em "Contos Populares das Ilhas da Madeira e do Porto Santo", José Viale Moutinho, editora Nova Delphi

Rabo de Peixe


Hoje fui a rabo de peixe filmar rabo-peixenses e foi lá que descobri as pessoas mais simpáticas e dedicadas do mundo inteiro. Se virem jogos de futebol no campo de Rabo de Peixe, reparem nos apanha-bolas. Têm coletes que dizem "Wembley Stadium", porque foi o Burrica que os trouxe de lá quando viveu em Inglaterra, durante quatro anos. Ele não os comprou, mas ofereceu-os todos :)

Os cartazes da CDU

Hoje vi aqui na Horta (no largo do Infante) o cartaz de um candidato da CDU, com a parte de baixo ao sol quase poente e a parte de cima à sombra de uma árvore, tal como são as sombras das árvores que deixam passar o sol entre as folhas. Essa imagem aqueceu-me o espírito. Mas ia de carro e logo pensei noutras coisas.


Agora à noite, recapitulando as coisas boas do dia, voltou e imagem e percebi o porquê: no Redondo, no largo, à sombra dos plátanos havia os cartazes da CDU. Não tenho nenhum amor especial pelo comunismo, mas tenho um amor muito grande aos plátanos do Redondo. E ao largo do Redondo, que é um verdadeiro largo. O largo do Infante é estreitinho, ao contrário da visão do homem que lhe deu o nome.

Corrida de Sardinhas

Prevista no princípio do séc. XX para o ano 2000 :)
Foi enviada por um amigo

A "cataplasma"

Novembro, 17 (1838)
A maneira de comer a bordo de um navio fruteiro de S. Miguel em dias de mau tempo, desconserta tristemente quem estiver habituado ao uso de talheres de prata.

A expressão habitual designativa do almoço, do jantar, do chá e e da ceia é "ir buscar a comida", perífrase que à maravilha define o cerimonial em uso.

O compartimento em que tal obrigação se desempenha é suficientemente amplo para quatro pessoas, e tem, à guisa de mesa, uma cómoda quadrada, provida de asas. Devido ao tempo borrascoso que tem feito, torna-se necessário, antes de pôr a mesa, pregar-lhe a "cataplasma" (como diz o capitão), isto é, torcer em longo rolo qualquer peça de vestuário desgarrada que por ali se encontre à mão, um casaco impermeável, ou capote de lã, p. exemplo; depois, dispô-lo em ziguezague sobre a mesa, cobrindo o rolo com um pedaço de vela, a modo de toalha, e formando a sotavento uma grande protuberância para proteger a loiça no caso de balanço forte. Finalmente, a fim de manter a "cataplasma" no devido lugar, é esta fixa por um pedaço de fio de corda enlaçado por sobre a mesa, e atado aos puxadores das gavetas.

O despenseiro, designação pomposa dada a um rapaz sebento, enfarruscado e jovial, prepara o almoço, apertando entre as anfractuosidades da "cataplasma" as chávenas, os pires e as tijelas, para evitar que caiam e se depedacem; enche de biscoito o cabaz do pão e coloca-o firme no meio da mesa, escorando-o com um bule e com pão duro; em seguida, entala nos sítios convenientes o manteigueiro de manteiga de Cork, um bocado de carne salgada, um açucareiro de açúcar mascavado, enfeitado com torrões da mesma substância branca; arremessa para a mesa um molho de colheres de estanho e outro de garfos e facas novos e embotados e depois retira-se para preparar o chá.

Suponhamos que o chá está pronto e que o bule ficou estivado com o bico para barlavento; tanto que o encarvoado moço de novo aparece com uma caçarola de ovos, enorme vaga invade o navio; este entra em balanço forte para sotavento e com o balanço tentamos segurar as xícaras aos pires, segundo-se porém indescritível caos entre todos os utensílios indispensáveis ao almoço: o bule extravasa o chá por sobre o manteigueiro; entorna-se o leite; o pão fica ensopado; e porque deixaram a escotilha aberta, desabam sobre as nossas cabeças vários baldes de água dos grossos mares entrados a bordo. O capitão pragueja, o criado põe de lado os ovos, em busca do balde e da rodilha; os passageiros levantam os pés para se livrarem da água salgada que já encharcou os mochos, as botas e as extremidades dos capotes e continua a enlamear e a gorgolhar no sobrado do camarote; o homem do leme resmunga, rabujento, - "Sim, senhor" - à ordem ainda mais azeda do capitão - "Aguenta-o firme".

Ao jantar os preparativos são mais ou menos os mesmos do almoço.

O capitão não era nenhum gastrónomo.

A carne salgada é trazida numa celha de madeira até à porta da sala de jantar, onde a cortam em duas partes iguais.

Metade volta para cima pela escotilha na mesma celha para consumo da tripulação; a outra metade punha-se em fundo tacho para a mesa da câmara. Vinha então o infalível prato de bordo, de couves com gordura, cenouras esbranquiçadas e batatas com casca. Postas todas as iguarias na mesa, seguia-se a tarefa de averiguar o paradeiro do capitão. Chegado este, quando a comida começava já a arrefecer, verificava-se que não estavam na mesa nem os garfos, nem as facas e que também faltava a mostarda. E porque o saca-rolhas ficara esquecido na gaveta, tornava-se necessário desmanchar a "cataplasma", levantar a mesa e voltar a pô-la.

Arrancada a rolha, tiravam-se os copos do armário, ainda com os restos do vinho da véspera, a secar. "Cozinheiro, cozinheiro!" e os copos eram entregues pela escotilha com a recomendação: "não se lavam agora com água doce", aviso este que o forte gosto a água salgada na borda do vidro logo indicava haver sido fielmente cumprido. A ceia era como o almoço repetido à luz das velas.

................

Joseph e Henry Bullar em "Um inverno nos Açores e um verão no vale das furnas" traduzido do inglês por João Hickling Anglin - Edição do Instituto Cultural de Ponta Delgada - Ilha de S. Miguel - Açores, 1986

Inquisição

Ainda existe este sentimento, entre nós. Resquícios do anti-semitismo?

"A suspeita de cristã-novice recaía, com frequência, sobre quantos alcançavam sucesso nos seus empreendimentos, privilegiando-se, socialmente, aqueles que mantinham estilos de vida ociosos e perdulários contrários à mentalidade capitalista emergente."

in "Indiferentes à Diferença - Os Judeus nos Açores nos sécs. XIX e XX" de Fátima Sequeira Dias

Tudo bem gravado dentro do meu sentido


Adeus Rua Sá Carneiro
Adeus Rua de Mourão
Adeus Largo adeus Igreja
Do Sagrado Coração

I
Adeus Rua do Rossio
Adeus Sociedade
Adeus Museu de Antiguidades
Tudo feito com muito brio
Adeus Fonte do Rossio
Adeus Travessa do Carneiro
Ainda digo adeus primeiro
Ao antigo lavadouro
Despeço-me com muito amor
Adeus Rua Sá Carneiro

II
Digo adeus à taberna
Do Francisco Carrilho
Seguindo o mesmo trilho
Adeus Café Lanterna
Falando de coisas modernas
Tal como elas são
Tenho a preocupação
Não me esqueça alguma coisa
Adeus café da Lousa
Adeus Rua de Mourão

III
Adeus padaria
Adeus Rua da Calçadinha
Esta ideia é minha
Adeus lojas e mercearias
Quando chegar esse dia
Que por certo ninguém deseja
Aqui estar para que se veja
Eu lanço este retrato
Adeus café Regato
Adeus Largo adeus Igreja

IV
Adeus Rua das Palhotas
A da Estrela fica defronte
Adeus Rua da Fonte
Ao largo tem uma horta
Para nós pouco importa
Nesta mesma ocasião
Aceitamos esta lição
Tal como se diz
Adeus Igreja Matriz
E a do Sagrado Coração

V
O que aqui não foi citado
Por certo não está esquecido
Tenho tudo bem gravado
Dentro do meu sentido

João Chilrito Farias (poeta popular), Luz, 1997
em "Breviário Alentejano" de Francisco Martins Ramos
Editora Caleidoscópio

pico gelado

Na Madalena do Pico há uma gelataria de gelados daqueles que são feitos lá.Quando se vai daqui ao Pico, tendo tempo, come-se um gelado da gelataria.Há umas semanas fui ao Pico. Tive tempo e comi um. Estava bem bom. Quando ia apanhar a lancha para voltar para o Faial passei outra vez em frente à gelataria a tempo de ouvir esta conversa assim, nítida, quase de propósito para eu a ouvir: um senhor chegou, pôs os cotovelos no balcão e disse para as três senhoras que estavam lá dentro:
- Com que então não gostaram dos gelados da Santini??

E elas, pareciam ensaiadinhas, abanaram a cabeça com muita convicção e puseram os olhos em baixo:

- Não!!!

 Segui caminho, sem ouvir mais nada, para não estragar esta história perfeita.

O Verão é tempo grande



tive saudades e voltei para aqui :)
até já

o desenho é da Maria Keil

o sorriso

o sorriso, o riso
são muito mal empregados quando são de desdém
ou de crítica.

o sorriso devia ser sempre usado e interpretado como uma alegria a partilhar.

o enguiço


e em cada dia que passa
passa-se por onde se passa
faz-se o que se possa e se faça
nessa parte sobra sempre
o que se sente e que embaça
e não sai porque não passa

mas mesmo assim
há sempre aí
um pequenino chinfrim
que acutila o teu jardim
e te afia o teu sorriso

e mesmo aquilo que é retido
sempre ganha algum sentido
e se fica é porque pede
de ti algo que ele bebe

entre a tua e entre a disso
haverá sempre esse enguiço
desembrulhas-te e isso enrola-te
tu libertas-te, isso esfola-te
safas-te alguns bocadinhos
mas isso aninha-se ainda
e enquanto assim fores vivendo
vais puxando
vais comendo
aos poucos envelhecendo
só que nunca houve outra hipótese
e assim se vai passando
o que se passa e nunca pára
te trespassa e não se cura.

alguém disse


"Nunca poderá haver uma sociedade sem classes.
Porque haverá sempre a classe dos que a querem
e a dos que a não querem.
Qualquer um deles se julga superior aos outros
e assim por diante."

a imperfeição inspira

come menos
descansa mais
passeia
usa coisas velhas
não laves tudo
escuta
brinca
toma atenção
fica calado
procura amar
amar é entender
cozinha tu
come coisas cruas
bebe água fria
apanha frio no inverno
e calor no verão

não fujas da natureza
ela é a mãe

a vida tem um v porque é, em grande parte, nevoeiro

Innocence Song

Piping down the valleys wild,
Piping songs of pleasant glee,
On a cloud I saw a child,
And he laughing said to me:

"Pipe a song about a Lamb!"
So I piped with merry cheer.
"Piper, pipe that song again;"
So I piped: he wept to hear.

"Drop thy pipe, thy happy pipe;
Sing thy songs of happy cheer!"
So I sung the same again,
While he wept with joy to hear.

"Piper, sit thee down and write
In a book, that all may read."
So he vanished from my sight,
And I plucked a hollow reed,

And I made a rural pen,
And I stained the water clear,
And I wrote my happy songs
Every child may joy to hear.

(introduction to Songs of Innocence)
William Blake

(8)

as ilhas são lagos de terra num continente oceânico

Redemption Song

"Emancipate yourselves from mental slavery;
None but ourselves can free our minds.
Have no fear for atomic energy,
cause none of them can stop the time.
How long shall they kill our prophets,
While we stand aside and look? ooh!
Some say its just a part of it:
We've got to fulfil de book."
Bob Marley

sinceridade

é tão rara que pagamos por ela.

é tão boa a sensação


de se pensar que se está onde se quer estar
como se quer estar
e com quem se quer estar.

ser o oposto daquela música do António Variações.

sobretudo quando já fomos assim tal e qual como ele canta.
e também gostávamos disso.

a amiga noite


desde que pude e consegui
ficar acordada até tarde
e sozinha

isso foi um prazer para mim.

agradeço a luz eléctrica

na noite sentimos o nosso eu
mais presente.
percebemo-nos melhor
e damo-nos uma grande importância
a cada coisa que fazemos.

não temos horário para nada e sabemos
que vamos acabar em prazer: no sono

mas não há horas de refeições
nem de visitas
nenhum sítio onde estar
não há telefonemas
nem muitos barulhos

à noite há mais tempo para as invenções humanas
a minha preferida é a escrita
ou a criação de qualquer coisa
a net tb é fixe

a noite é o mais próximo que encontro
da intemporalidade
e o tempo em que mais me aproximo de mim.

mas só o faço às vezes.
e é tão bom

The Kiss

Este foi o primeiro beijo da história do cinema.
Apareceu nos kinetoscópios e passou despercebido. Mas quando foi projectado em grande ecran, 3x maior que o tamanho real e 3x repetido, todos ficaram muito chocados e horrorizados.

Critic Herbert Stone complained, " . . . neither participant is physically attractive and the spectacle of their prolonged pasturing on each other's lips was hard to beat when only life size. Magnified to gargantuan proportions and repeated three times over is absolutely disgusting!"

50 anos






A primeira boneca Barbie foi lançada oficialmente na Feira Anual de Brinquedos de Nova York, a 9 de Março de 1959.

No dia seguinte, o Tibete inicia uma fracassada revolta contra os dez anos de ocupação chinesa em Lhasa. Milhares são massacrados pelo exército de ocupação chinês.

imagem1.Empress of the Golden Blossom™ Barbie® Doll - Price: $150.00
imagem2.Montanhas Tibetanas - ..............

inventário

.dizer "olá"
.dizer "luz" e apontar para a luz
.apagar a luz e acender
.fazer adeus
.apontar para o que quer
.mudar canais de tv
.fazer de índio com a mão na boca
.fazer trrrim no nariz das pessoas
.dizer onde está o seu dentinho

under the sea


lá em baixo
é que é o planeta terra
é que é o mundo dos sonhos
é que há de tudo
cá em cima
é só e apenas uma epidermezinha onde estão os parasitazitos
ácaros e tal.


é é

as saudades da terra



a terra não é como as pessoas.
não dá para telefonar para ela
e matar saudades brandamente

só se comunica com uma paisagem
estando nela.
sentindo-a com tudo o que
temos de sensível.

amar uma terra é coisa dura
amar uma nova terra é sempre aumentativo

mas dividir o nosso amor por várias terras
é ingrato.

ainda não se pode estar em dois lugares ao mesmo tempo
e aí net não serve para nada.

flores para calados

















Olá amiguitos.
Muitas vezes, depois de um post mais denso
não consigo evitar
e deixo passar o tempo
antes de um novo.

e este novo post
eu só queria
que ele fosse dedicado aos silenciosos.

adoro gente silenciosa
desde que não seja sinistra.

nem mimos ou clown, porque também acabam por ser sinistros

depois das renováveis, as perenes
























separo embalagens para reciclar
e com isso gasto tempo e energia
que podia gastar a escrever manifestos
ou a fazer filmes sobre reciclar.

qualquer acção é geradora
umas numa direcção outras noutra
a preguiça é um exemplo de energia que gera situações
apesar de parecer que não gera nada de nada.

há vários tipos de energias geradoras
umas geram através do esforço: transformam
outras geram através do não esforço: limitam-se a permitir a transformação
outras ainda conseguem gerar inversamente: impedindo a transformação, levando-a por novos caminhos

por isso
o tempo é energia
o movimento é energia
um riso é energia
ou um grito
um choro
uma depressão
uma doença
uma viagem
um castigo
um trabalho
uma sesta
um abraço
uma cópula
uma flor
um som
um caminho
um campo
uma cidade
um buraco
enfim
um enfim...

Irundinhas e Merlos



Se o nome latim da espécie das andorinhas é
Hirundinidae
elas devem ter sido chamadas de Irundinhas
antes de serem Andorinhas.
Faz sentido porque já ouvi muita gente do
Redondo chamar-lhes Indurinhas ou
Endorinhas. Imagino que deva ter sido assim:
Hirundinas
Irundinhas
Indorinhas
Endorinhas
Andorinhas.

Já o Melro, a história parece ser mais
pequena, mas parecida: ainda há no Redondo
quem lhe chame Merlo, que vem sem dúvida
ainda do latim Merulo. Não foram os
redondenses que tropeçaram na língua.
Alguém o fez antes deles e agora vem nos
dicionários que se diz Melro e não Merlo.

as andorinhas já chegaram a
Portugal Continental
aqui não há andorinhas, mas há melros.
Bonitos!

nham nham



português, docinho e perfeito
uma vez ou outra
numa casa da especialidade


mãozinhas de ouro

o Julião ainda não diz nenhuma palavra reconhecível
nem deu mais do que um ou dois passos sem ajuda
e vai fazer um ano no dia 26 de Fevereiro.



Mas não tem estado a desperdiçar o seu tempo.



ele já sabe
carregar no comando, enquanto olha para a tv
acender e apagar a luz dos candeeiros da sala

e... desenhar!


(foi a primeira composição que ocupou o quadro todo)


é um rapaz que gosta de manipular objectos...


aos mais ansiosos:
não estamos a descurar os deveres principais do Julião,
falamos muito e andamos muito com ele.
mas ele é que escolhe o que lhe interessa mais e quando.

aurora e família do south park










http://www.sp-studio.de/ --> aqui fazem um para vocês!

só de passagem

para agradecer a quem veio aqui ao meu blog.
e para dar um pequeno conselho que logo a seguir vou cumprir:
larguem esse computador, endireitem as costas, levantem-se da cadeira
e vão fazer uma cena qualquer ou não vão fazer nada.

sabem porquê?
porque é fixe!!

Tradição? Folclore!





Fui ver ao cinema um filme que se chama "O primeiro choro". Uma viagem à volta do mundo num dia de eclipse, a ver como as mulheres dão à luz. Apesar de algum gosto duvidoso presente no filme, até era um filme interessante. Mais pelo que dava a conhecer do que pela forma como estava feito.

Uma das conversas recorrentes entre as mães civilizadas do filme era que era necessário parir de forma tradicional. Que desde sempre as mulheres tiveram filhos, que elas foram feitas para isso, que os hospitais são sítios horríveis e frios para se vir ao mundo neles et tout ça.

hmm mmm... ok. Quando as mulheres tinham os filhos da forma "tradicional" e morriam às dezenas e perdiam filhos e etc, descobriram uma forma de fazer nascer pessoas em que se diminuia imenso o risco de alguém morrer e andaram a fazer campanha a todas as mulheres para irem ter os filhos ao hospital.

É a história da esterilização. Quando a humanidade era muito porquinha e morriam milhares de pessoas devido à falta de higiene, inventou-se a estirilização. E hoje em dia advertem-se as pessoas que demasiada estirilização pode dar origem a alergias, entre outros males lixados.

Pffu... a humanidade porta-se sempre mal, é o que é. Ora não se lava ora desperdiça água...

E pronto, grávidas, vamos lá voltar à tradição tradicional ancestral das nossas antepassadas mulheres parideiras! Mas a qual tradição, pergunto eu!!?? À da minha avó? À da minha bisavó? À da minha minha tetravó? À da minha tataritotelavó? À da macaca primordial? À da Eva?? Se julgam que a tradição é uma coisa estanque e acabada que resolve tudo em si, não julguem. Tudo se altera, tudo se alterou ao longos dos tempos e dos lugares.

Entre nós, a tradição resultou nas maternidades (o tempo de hoje é sempre resultado do tempo de ontem), e pelos vistos agora está a mudar para uma coisa mais caseira e íntima, menos rígida e mais ao gosto da mulher actual. É UMA COISA ACTUAL e não tradicional. Até porque tradicional não quer dizer nada... é como as danças dos ranchos folclóricos. São tradicionais? Não. São inspiradas numas coisas que houve durante uns tempos lá nuns sítios. Com umas roupas lavadinhas e engomadinhas e de lindas cores artificiais que nunca houve umas assim antes de hoje! No fundo são coisas de agora e pronto.