procurem nas vossas costas


garrafinha garrafinha
na crista da espuma
salta pocinha
por enquanto és só uma
.
outras seguirão
por esse mar afora
do tomás, do julião
e também da aurora

Estar Atento

Andar com a cabeça levantada.
Há notícias no vento e na luz
Informações nas esquinas
Ideias se revelam nos voos das aves

Dois sorrisos de velhotas
Um reflexo na água onde mergulha o caranguejo
O motor de um avião ao longe
Uma bicada de ave perdida na porta da cozinha

Pedras que absorvem água
Pedras que boiam
Vulcões adormecidos
Barcos com gambiarras festivas no escuro

Riscos de chuva à frente da árvore
Lagartixas de rabo cortado que são mais ariscas
Cães que uivam às ambulâncias
Malucos que riem nos caixotes do lixo

é maravilhoso
estar atento.

começou o inverno ontem em todo o hemisfério norte


as estações não começam nas datas dos solstícios nem dos equinócios
nem sequer há 4 estações como consta nos manuais humanos
o tempo meteorológico vagueia e transforma-se a seu bel-prazer
um pouco mais quente e calmo numas alturas
mais tormentoso e frio noutras


a única divisão eficaz entre o verão e o inverno é a mudança da HORA. e ontem foi o primeiro dia de inverno porque foi o 1º dia em que as pessoas saíram dos seus trabalhos de noite.
foi o 1º dia em que era de noite e ainda havia lojas abertas.


é agora que se começa a farejar o........................................ natal

pequenas conversas I


- bá, diz bá
- prrr
-bá, diz bá. bá!
- ah
- (sorriso) bá, diz bá. bá... bá...
-........ âoh .

poesia


a poesia não é uma arte.
a literatura é uma arte.
a poesia e a arte são uma e a mesma coisa.

adulto só fala merda



gosto desta expressão brasileira. "x só fala merda"
dá-me vontade de rir
expressões é, aliás, com os brasileiros.
talvez o brasileiro adulto não fale só merda.
mas os adultos falam de
o que fizeram
como fizeram
o que disseram quando fizeram
o que os outros responderam
o que compraram
o que querem comprar
o que os outros compraram
futebol
política
economia
doenças
moda
saldos
promoções
enfim: só merda.
as crianças falam do que calha. pode ser de coisas
descobertas
inventadas
esquisitas
confusas
divertidas
de meter medo
ou até de merda.
agora merda é que não, aliás, nunca falam de nada.
eu já falo de muita merda. já tenho 23 anos. mas ainda falo de outras coisas. e tu?
a arte não é merda. mas os financiamentos são. tudo o que meta gente de gravata é merda.

bem aventurados



Ninguém quer ficar maluco.
Mas eles são as pessoas que mais se riem sozinhas.
E rir sozinho é bom.

ensinamento animal


não te coles a nenhuma aparência
mas sê sensível ao que te rodeia.
Chamaeleo Calyptratus

li este ensinamento nos olhos deste animal mas gostava ainda de acrescentar algumas palavras minhas: a paisagem é tudo. A paisagem nunca é o resto. E então quando dizem "e o resto é paisagem" é que não faz mesmo sentido nenhum.

boa energia



uma é explosiva barulhenta perigosa
a outra é quase silenciosa quieta e inócua

porque é que ainda há tantas nuclearices?
as renováveis são "para mariquinhas"?

poema das moscas


enquanto a mosca zumbe
a tensão da minha sensatez
é mafiosamente dedilhada

Título do Post: A VIDA

Descobri que ninguém é melhor do que ninguém por aquilo que consegue fazer. Para muitos isto não é novidade, mas para mim, embora já tivesse formulado este pensamento, só há alguns meses é que eu senti que isso é mesmo verdade. Nem o Mozart é melhor do que o Toy.

Sentença esquisita, esta última. Obrigo-me a explicá-la:

Não há tempo para tudo. Não há tempo para sermos pais e trabalhadores e donos de casa e estudar e ainda por cima fazer isso tudo bem feito. E se por acaso houver tempo para isso não haverá tempo para mais nada. E ser melhor não é deixar de relaxar, de descansar, de ter momentos de lazer.

Na vida de adultos o que faz de nós o que somos é aquilo em que gastamos o nosso tempo. Já que em crianças gastávamos o tempo todo a viver (fazer coisas sem nome, acções sem verbo: era tudo brincar e brincar é viver). Em adultos, tudo o que fazemos tem nome: trabalhamos, estudamos, passeamos, limpamos, descansamos, divertimo-nos, lemos... etc). O que faz de nós o que somos são estes verbozinhos. Se não fazemos muitos verbozinhos somos preguiçosos, se fizermos muitos, somos activos, se só trabalharmos e lermos jornais, somos sérios, se só nos divertimos e passeamos somos vadios, etc.

Há duas coisas que nos impelem para estes verbozinhos: o gosto e a obrigação. O gosto não preciso de explicá-lo e a obrigação pode ter várias origens, mas normalmente são de sobrevivência: pão, saúde/higiene e aceitação social. Julgo que os que podem gastar mais tempo naquilo que gostam são mais talentosos nisso do que os outros. E á tão válido ser talentoso na música como noutra coisa qualquer*. Mas como é que se pode achar que alguém é mais talentoso do que outro alguém se por acaso este segundo não tem hipóteses de ter tempo para aquilo de que gosta e o primeiro tem dinheiro para pagar a alguém que faça por si aquilo que ele não gosta, e assim ter tempo para fazer o que gosta? Não é o tempo que é dinheiro, é o dinheiro que é tempo.

* Vamos agora ao asterisco, porque eu ostensivamente ignorei aqui todas as pessoas que gostam de gastar o tempo em prejudicar outras pessoas. Também ignorei que há pessoas que fazem coisas para os outros, e por isso são mais amadas, claro. Só que serem mais amadas não quer dizer que tenham mais valor.

O Mozart gostava de música. Ele brincava na música, a música era tudo para ele - vivia e sobrevivia dela. O Toy também gosta de música, não duvido, mas gosta mais de outras coisas, e isso vê-se logo. É claro que eu prefiro a música do Mozart, que é uma música que foi feita com toda a alma. O talento é a entrega e cada ser humano se entrega àquilo que escolhe.

Para fazer bem as suas escolhas é preciso, acima de tudo, estar atento a si próprio. E ao lugar que os outros têm dentro de si próprio.

sobre fazer cinema


Não quero para aqui dar lições sobre fazer cinema, porque em primeiro lugar não o sei e em segundo lugar se o soubesse não sabia como o ensinar e em terceiro lugar mesmo que até isso conseguisse o mais provável é que ninguém aprendesse. Não por algum de nós ser burro, mas porque as coisas boas raramente são passíveis de ser ensinadas. Por isso queria só lembrar uma coisa, pois estou certa quem quem se lembrar sempre daquilo que eu vou aqui dizer já se sentirá mais amparado nas suas escolhas...

O cinema é ter numa sala um grupo de pessoas - e ainda que seja só uma - sentadas em cadeiras, na escuridão, com todos os seus sentidos postos no filme. Não, o cinema não é design, que encaminha as atenções das pessoas para coisas mais ou menos úteis, nem fotografia impressa numa revista, nem quadro que se veja em pé numa exposição mal iluminada, nem livro que se leia na diagonal, ou desfolhando rapidamente as páginas entre os dedos. O cinema também não é filme que se veja na televisão, entre uma lata de coca-cola, um xixi e um telefonema. O cinema também não é um DVD que se compre ou se alugue e se tenha problemas com o menu, ou com as colunas, ou com a TV ou com o formato...

O cinema é ter a gente por algum tempo, totalmente entregue ao teu filme.

little life in colors


são girinhas não são? e podem ver todas em grande aqui neste álbum do flickr.

o Caos e o Cosmos

ontem, durante a minha hora de televisão semanal
tive uma experiência que se inseria perfeitamente no blog - duplas
mas como a quero explicar um bocadinho melhor... cá vai


eram 22h, na rtp.n e na sic.n estavam a "dar-lhe" na enorme crise que acertou mesmo em cheio no nosso "pequeno" planeta
a crise económica, com as bolsas a cairem pelo mundo inteiro (felizmente ainda não houve feridos)

depoimentos de pessoas muito importantes
todos com cara de caso, incluindo os pivots
fartavam-se de mostrar gráficos e indices e percentagens
as imagens que iam entretendo o espectador
cofres de bancos americanos até escritórios de grandes edificios e indices e mais números

eu por ali fiquei
entre um canal e o outro
a entrar no mundo, a tentar perceber o porquê da crise
e quando já estava mesmo cheio de informação

mudei para o odisseia

um rapaz com ar de ser humano, mergulhava ao largo de uma ilha
nadava com as tartarugas, enormes
apanhou uma, trouxe-a para terra no seu barquinho
foi até ao interior da ilha onde a trocou por um porco












Ureparapara in the Banks Islands

fresquinhas do mercado!

duas senhoras encontraram-se há 15 minutos à minha frente no mercado da horta
tinham os seus setenta anos...

uma delas, cabelos brancos bem penteados e baton vermelho diz à outra, mal a vê (mais gordinha, de óculos e caracóis cinzentos):
-esta noite sonhei que estava mais umas do nosso tempo numa festa num género de teatro fayalense. e também estavas lá tu!
-ai sim? todas nos teatros?
-não, tu estavas muito zangada por causa de não sei quê...

não pude ouvir mais...

as velhinhas - vi mais para além destas, por isso sei do que estou a falar - nesta manhã cinzenta estavam todas muito bonitas. as roupas delas têm texturas e padrões que ficam lindamente com estes dias.

coisas que se dizem

cada povo tem as suas expressões, que são influenciadas pelo modo de vida desse povo e que por meu lado também acredito que influenciem o modo de vida das pessoas

aqui na ilha do faial
as pessoas tratam-te por tu
naturalmente sem problemas
adoro isso
quem me dera fazê-lo sem um nozinho na garganta
hei-de conseguir

no continente diz-se "estou um bocadinho cansada"
aqui não
aqui diz-se "estou uma coisinha cansada"
"estou uma coisinha maldisposta", "esse tomate ainda está uma coisinha verde"
não é giro? gosto tanto...

"é forte maluco" - é muito maluco
"ela tem forte vontade" - ela tem muita vontade
"dei forte pancada com este braço" - dei uma grande pancada com este braço

e esta é muito engraçada: quando passeio com o Julião nas ruas da cidade e ele está a dormir algumas pessoas comentam: "tadinho, tá-se consolando!" :) acho que está é uma verdadeira expressão idiomática porque não há propriamente "tradução" é assim: está-se consolando. e está!


Globalização


Eles foram buscar areia a Marrocos
E na Madeira Eles construiram esta praia
.
.
Eles legalizaram todos
todos estes imigrantes grãos de areia
todos fora daqui! Vão pá vossa terra!
.
Os Cubos de betão podem ficar porque são muito lindos e direitinhos
.
_____________
Eles legalizam tudo
Eles legalizam tudo
Eles legalizam tudo
e não deixam nada
_____________
Eles proibem tudo
Eles proibem tudo
Eles proibem tudo
e não deixam nada
_________________
Eles obrigam-nos a tudo
Eles obrigam-nos a tudo
Eles obrigam-nos a tudo
e não deixam nada
.
...
.
Mais facil será satisfazerem-nos todos os Natais
Quando todos os lugares do mundo forem iguais
Poderemos ficar em casa, finalmente
a consumir descansadamente

Quando se anda sozinho na praia pensa-se

porque é que será que muitas vezes, quando estamos sozinhos, nos sentimos e nos comportamos como se estivéssemos a ser observados por um número considerável -mas apesar de tudo impossível de precisar- de olhos?

Quando se anda de bicicleta pensa-se

que muitos problemas políticos e não só
são consequência da ignorância, ou pelo menos da indiferença pelos seguintes factos

que as massas são o resultado da soma das individualidades
e que em toda a individualidade pesa a força das massas

extravasar

Há aqui na Horta, perto de nossa casa, uma casinha de um senhor. Sempre que por lá se passa podemos ouvir a missa em altos gritos, ou o Quim Barreiros, ou a Júlia Pinheiro ou qualquer outra coisa que nem sempre é bom ouvir em altos gritos. O volume do som contrasta com as dimensões da casa. Mínima, e com a porta aberta numa óbvia tentativa de respirar. Acredito que a gritaria não seja por o senhor ser surdo mas sim por essa necessidade de extravasar as paredes da sua casinha. Que importa se as pessoas da rua estão interessadas em ouvir... o que importa é sair, sair projectado daqui, entornar-mo-nos daqui para fora. Não é um senhor jovem que possa sair correndo até à praia e mergulhar. É uma forma diferente de o fazer, esta.

Assim os carrinhos que no continente se chamam mata-velhos ou papa-reformas abundam aqui, assapam pela marginal, muito quitados e com o tum-ts-tum a bater tão rápido quanto o seu coraçãozinho de carrinho pequenininho.

Engraçado não é? Acho que deve ser por a ilha ser pequenina e por não conseguirem pôr a caldeira a cantar o Hino dos Açores ao atlântico inteiro... cada um à sua escala!!

reconheço logo existe














Sei quando as pessoas querem alguma coisa

É quando vejo na sua expressão aquilo que sinto quando quero alguma coisa
Sei quando os animais querem alguma coisa
É quando vejo nas suas expressões aquilo que vejo nas pessoas quando querem alguma coisa
Sei quando as plantas querem alguma coisa
É quando vejo nas suas expressões o mesmo vigor que vejo nos outros seres com vontade

Mas muitas vezes não consigo perceber a vontade dos minerais
ou o que sentem eles
Porque não reconheço neles aquilo que reconheço nos outros
Não há dúvida de que são diferentes
Ainda assim há aquelas vezes em que os percebo tão bem
que reconheço que eles sentem muito mais do que aquilo que eu posso perceber

Hei-de estar mais atenta
É que o que eu mais gosto mesmo neste mundo é de expressões.

Sobre os comunistas, revoluções e outras ilusões.

Se o povo não se revolta é porque não está revoltado.Se o povo não está revoltado é porque não está descontente.Não é bom sinal o povo não estar descontente?Para os comunistas não. Para os comunistas, um povo que não se revolta é um povo oprimido (na melhor das hipóteses), ou estúpido (e esta ainda não é a pior hipótese).Para os comunistas a revolução parece ser o fim em si mesmo. Nas suas cabeças pintam a tinta vermelha eternos cenários de gritaria e punhos estendidos, estandartes, canções, marchas e megafones. O pós-revolução será sempre, para um revolucionário, uma desilusão. Seja qual for o resultado que ela origine, será um resultado pós-coital de sabor amargo.

E o único refúgio é continuar a pensar naquela profetizada revolução, a única, a verdadeira, a libertadora. E até lá (até à morte) é ir dando o gosto ao dedo fazendo umas greves sindicais, cujos manifestantes foram levados de autocarro até Lisboa e que no mesmo dia voltam de autocarro para as suas casinhas. Porque ela foi profetizada, ela foi profetizada... a luta continua, o sonho continua...

Para os judeus sempre houve a profecia do Messias, o salvador. Quando Jesus apareceu, houve quem achasse que era ele e outros que preferiram continuar a sonhar. Os primeiros passaram a ser cristãos, os outros continuaram a ser judeus. A quantidade de sangue que jorrou dessa divergência deixa qualquer um sem palavras. Já viram a força que tem um sonho? E todas as cabeças têm os seus.

Pela sua potência, os sonhos deviam ser sonhados mas pouco alardeados. São preciosos, a vida vive deles... mas eles não são nem podem ser a vida.As alterações sociais (e quaisquer outras alterações) que se produzem ao ritmo e ao som do cantar dos pássaros são bem mais seguras e aconchegantes do que as que são feitas a som e ritmo de megafone. Mas este é o meu sonho e talvez eu devesse calá-lo.

A História é Controversa

e disso ninguém tem dúvidas

aliás, qualquer coisa com mais de um mês, por se começar a diluir na memória, torna-se rápidamente controverso e motivo de discórdias. e não estou a ter em conta os historiadores (escritores da história) terem já a memória toda baralhada pelos cabelos brancos - infelizmente a história não é escrita pelas crianças, nem pelos leões

porque é que todos recordamos os mesmos personagens do passado?
porque é que há apenas duas visões? os bons e os maus, os maus e os bons?

para mim a culpa é dos livros
porque o que é lido é tido como certo, e o que é decorado (como todos o fizémos por disciplina em história) é tido como sabido

Venho por este meio propor que a História seja escrita por imagens

filmadas ou desenhadas, fotografadas ou recortadas
havendo várias visões, haverá uma realidade!
talvez um pouco cubista...
e por isso a controversia pode finalmente aumentar e tornar-se interessante

estar atento



uma pessoa nunca se compreende totalmente a si própria
uma pessoa nunca compreende nada totalmente
por isso é confortante quando há coisas sobre nós que temos a certeza

eis as minhas:
-sono e período fazem de mim a pessoa mais miserável do mundo
-atinjo a plenitude e a alegria completa quando há calma e conforto
-se estou a ter uns pensamentos e no meu campo de visão aparece um pássaro a voar, sinto formigas, uma violenta emoção no estômago
pensava que tinha mais mas agora pensando bem não são coisas assim tão certas com tanta certeza.

Mas estas que aqui ficam são verdades, puras e cristalinas verdades.

olá pedro!

Olhem que sabe bem
e mais que bem
encontrar um blog de um amigo
e gostar-se tanto que se vem rever o nosso
para perceber o que é que estava mal
e com a inspiração recebida tentar melhorá-lo!

http://o-calor-e-humano.blogspot.com/

eu devia poder ler uma expressão assim
vinda de todas as pessoas que conheço!

A Galeria de Van Gogh


Há 6 ou 7 anos
no autocarro do Redondo para Évora, onde todos os dias de manhã tinha que viajar com a Rádio Renascença, ouvi, numa rubrica sobre páginas da internet, a sugestão do seguinte endereço:


talvez por ser do Van Gogh, talvez pela simplicidade do título da página, talvez por o ter ouvido e não lido, talvez por ter sido numa altura em que havia menos páginas...

não só me lembrei dele para o ir ver à net
como nunca mais o esqueci
é uma página infindável, boa para quem gosta de Van Gogh e de encontrar coisas "novas" dele.

lá há tudo


quem dera que houvesse uma assim do Fernando Pessoa...

o bom e o melhor



bom é fazer um jardim
melhor é passear nele

bom é ter uma biblioteca
melhor é ler livros

bom é ter uma boa casa
melhor é estar lá dentro

bom é lavar roupa
melhor é vesti-la

bom é ter um filho
melhor é brincar com ele

bom é apanhar figos
melhor é comê-los

bom é ter uma vida
mas melhor
melhor é vivê-la

VIVA - O - PICO

(este vem fresquinho, é de hoje)

e quando o espírito se nos ensombra
ou a raiva cresce sem razão
não há como erguer a vista
e o Pico nos acode em salvação

o lirismo copio-o dos livros
as palavras do viver
mas o que mais me impele nisto tudo
é toda esta beleza que me quer morder

"qualidade literária duvidosa mas com conteúdo sentimental aparentemente autêntico"

ter um filho










deixamos de ser adultos outra vez
embora em muita coisa o fiquemos mais

o cinema do cotovelo oeste


Da minha janela tenho vista para a rua toda, desde o cotovelo leste ao cotovelo oeste. A minha janela fica virada a sul, por isso o sol entra-me em casa durante todo o dia. Sinto-me feliz com isso. O homem europeu também andava sempre do lado do sol.
.
Passava para lá de manhãzinha e depois para cá à tardinha. Aos fins-de-semana passava muitas vezes. Parecia gastar os dois dias de descanso entre o cotovelo leste e o cotovelo oeste. Eu não me admirava com isso. No lado oeste da rua, depois do cotovelo, existe o CINEMA. O homem europeu gosta de cinema. Durante a semana trabalha e não pode ver as fitas, mas ao fim-de-semana vê-as todas. Durante o intervalo entre sessões vai sempre a casa, que fica no cotovelo leste. Por isso passa tantas vezes debaixo da minha janela, deixando no ar um fumo seco de cigarro espanhol.
.
É claro que já troquei com ele algumas palavras. Nem sempre é um tipo simpático, mas sempre atento e nunca arrogante. Já houve quem lhe chamasse ignóbil mas nunca o vi ultrapassar os limites da decência.
.
Costumava andar sozinho. Nos finais de tarde dos sábados fazia-se acompanhar no seu passeio por uma rapariga séria, morena e de grandes olhos tristes. Iam à sessão da noite. A rapariga levava o casaco de malha dobrado e pendurado no braço quando iam para o cinema e apenas pousado por cima dos ombros no regresso. Não raras vezes vinham a conversar. Ela não parecia mais animada do que antes, mas podia adivinhar-se que as conversas que mantinham eram sobre o filme.
.
Permaneço horas a fio à janela do meu quarto, porque sou muito preguiçoso e gosto de ver os meus semelhantes.
.
O homem indiano era assaz diferente. Passava sempre de manhã e sempre do lado da sombra. Era alto e magro e vestia uma túnica cor de açafrão que ondulava ao andar e deixava no ar uma mistura de incenso e cravinho. Só há filmes indianos de manhã, aos dias de semana. O homem indiano via-os todos, alguns repetidas vezes. Quando para lá ia acenava-me e perguntava-me sempre num português perfeito: "O senhor engenheiro passou bem?" E eu respondia sempre amavelmente. Muitas pessoas da rua o apelidavam de arruaceiro. Nunca o considerei tal. Tinha até gosto em ser seu vizinho.
.
A sua loja era no cotovelo leste, perfumada e colorida, onde atrás do balcão 1000 gavetas guardavam produtos culinários. Três lindas raparigas, suas filhas, sorriam e atendiam. Nunca lá comprei nada senão pimenta, único condimento ainda tolerado pelo meu delicado estômago, num pouco de queijo fresco de perfume branco.
.
O homem indiano ficava no cinema a manhã toda e voltava cantando as músicas do filme. Eu sorria para mim mesmo. E perguntava-lhe: "Acabou bem?" E ele geralmente acenava alegremente que sim, mas vezes havia em que dizia apenas "Ai que pena, senhor engenheiro... é a vida!"
.
Só que não era a vida, eram os filmes. Mas não fazia mal. A vida do homem europeu e do homem indiano eram os filmes. E a minha era o filme da minha rua.

Canção de como salvei a minha tia Sara de um resfriado nas extremidades

estava a papar
e uma mensagem
caiu do ar
dum personagem
do outro mundo
na minha sopa
caiu no fundo
sujando a roupa
da minha tia
a que por sorte
já nada via
e até à morte
ela nunca soube
que de ensopado
o seu lindo robe
ficou manchado
*
aquela carta
era para mim
dizia "Marta"
com letra assim
para o diferente
com inclinação
não frequente
lá dentro ainda
era mais fina
era tão linda
tão à menina
que eu gostei logo
li-a a correr
e era um jogo
a não perder
*
era um concurso
de outro planeta
tinha um percurso
e uma meta
a inscrição
vinha no fim
com um cupão
só para mim
fui preenchê-lo
para a cozinha
colei um selo
numa cartinha
e enviei
com os meus dados
depois esperei
os resultados
*
um mês depois
já estava farta
abri a carta
aos safanões
tinha vencido
todas as provas
e recebido
uma meias novas
quis ir contar
à minha tia
mas por azar
já não ouvia
apertei-lhe a mão
que estava gelada
mas no coração
não tinha nada
*
ainda vivia
em meu parecer
mas com a mão fria
por resolver
fui ver das meias
as do concurso
e enfiei-lhas
até ao pulso
*
na sua cara
cara de tia
de tia Sara
algo sorria.

Comunicado ao mundo


As pessoas de agora
que dizem que o antes é que era bom
não sabem concerteza que
aquilo que somos hoje
é resultado do que fomos ontem.

Publique-se.

Dúvida



Quando as pessoas dizem "as pessoas isto" ou "as pessoas aquilo", é de nós que estão a falar?

ser "verde"

agora querem alcatifar o mundo de verde?


os ecossistemas
estão em harmonia
porque se adaptam e readaptam
não são esquemas fixos
nem instaurados
*
a uma escala maior
no planeta terra
a harmonia também assenta na eterna mudança
*
os gelos gelam e degelam
mar e a terra avançam um para o outro
as ervas, as rocha, os animais
destróem-se, ajudam-se ou ignoram-se
*
entre eles estamos nós
com as nossas preocupações.
*
a moderna e politicamente correcta preocupação com o planeta
não é mais do que uma egoísta preocupação com a espécie
a espécie humana
*
tão egoísta quanta a necessidade de andar de carro
apesar de saber que polui
tão egoísta quanta a vontade de comer bacalhau
apesar de saber que são poucos
tão egoísta quanto todas as outras vontades
*
e
ao salvar tubarões
matamos salmões
ao salvar salmões
matamos camarões
*
uns valem mais porque são poucos?
outros valem menos porque são mais?
o que é ser ambientalista?

!

o julião é minusculinho.

mínimo

já falta pouco


esta é uma maternidade de estrelas


sardinha no oceano



estou aqui à janela da casa de banho, onde se apanha net de borla que vem do teatro faialense e onde se pode ir fazer xi-xi enquanto a net lenta demora a abrir uma página.


hoje está sol, o que não acontece todos os dias. o gato está feliz e não é o único.

viver aqui não é calustrofóbico nem nada disso. viver aqui é fixe.


dentro da ilha do faial há paisagens muito fantásticas e não arranjo outra palavra para as descrever. gosto mais do interior do que da costa, mas na costa é que se vive. o interior é para se ir lá beber aos poucos.


não há borrego no talho e a salsicharia lisbonense não vende salsichas.


às vezes acordo à noite com o barulho das ondas.


o pico o pico o pico o pico o pico o pico

ai o pico

é deus ali à frente.

Flores e Laranjas

uma vez
há muito tempo
quiseram-me vestir assim
como a menina lá de trás
posso dizer que é horrível
ter de ter uma coisa daquelas
sem a deixar cair
a dar-nos cabo do pescoço
:
é naquela idade que nos fazem dessas
antes não conseguimos
e depois já não deixamos
:
quanto ao leão aqui da frente
é feito de laranjas
e em relação a laranjas
tenho a dizer
que
hoje em dia as laranjas
têm vitamina C
mas não têm Caroço
:
fico à espera de azeitonas
cada vez maiores
mais doces
e sem caroço
nem espaço de caroço
tudo azeitona
assim como tudo é laranja
nas laranjas
sem caroço
!

carris e metro


estava eu a passar pelo sítio ilustrado na foto
sentada num autocarro e parada no trânsito
e pensei porque é que mesmo assim me sentia melhor
do que indo de metro. vou numerar
  1. a viagem parece mais curta *
  2. dá menos trabalho entrar num autocarro do que no metro **
  3. as pessoas estão mais desinibidas ***
  4. (no meu caso se fosse de metro tinha que mudar e indo de bus não tenho)

* mesmo que a viagem seja mais longa ou mais morosa por haver trânsito, como temos coisas com que entreter os olhos e a mente fora das janelas, ela parece sempre mais curta

** trabalho que dá entrar no autocarro: ir até à paragem. esperar, entrar no autocarro e passar o cartão. trabalho que dá entrar no metro : ir até à paragem, descer um lance de escadas, passar o cartão, passar a porta, descer outro lance de escadas, esperar, entrar no metro (isto quando não há mais lances de escadas)

*** não sei a razão disto, mas o certo é que é verdade

isto é uma das muitas questões de economia pessoal com que uma pessoa na cidade se debate

abrir os cofres











é clicar para poder ler e ver
as cores estão um pouco maradas
e faltava algum rigor/vigor no traço

mas elas estavam escondidas
e quiseram vir cá para fora
(já têm 2 anos!)

a espera


este tema vem a propósito de várias coisas, umas mais importantes e outras mais irrelevantes.
como de qualquer forma a única coisa constante é o presente
penso que isso de alguma forma faz dele uma coisa relevante e importante, sempre.
desde as maiores esperas, as que duram dias e talvez meses
às mais pequeninas, que um pão fique torrado
a espera é uma coisa sólida e palpável
porque irremovível
quando estamos nela
porque é apenas ultrapassável esperando tudo o que há a esperar
e só piora se desesperarmos.

enganar a espera fazendo outras coisas
às vezes é bom
mas a espera em si pode ter um bom sabor
esperar é ter esperança

ter esperança é estar de esperanças
e se esperas, sempre alcanças.

Lisboa II

  • a estação de comboios de Benfica tem sempre tanto vento que até dá raiva

  • a estação de comboios de Sete Rios é muito feia e desorganizada por dentro

  • a estação de comboios de Entrecampos tem o mesmo problema que a anterior

  • estas três estações são todas a seguir umas às outras na linha de Sintra.


não gosto de dizer mal mas ainda gosto menos destas estações.

Passeio da Fama

Ah, Lisboa sempre é Lisboa!


O sítio onde estou a estagiar permite-me encontrar
O Eça, o Camões e o Pessoa todos os dias antes e depois do almoço (que é nas Belas Artes).
por isso eu sou o que se chama "uma tipa com sorte".
.
e
estou a estagiar numa produtora cujo nome
é uma síntese de
Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia.
.
também encontro sempre o Chiado, mas desse só conheço a estátua e o sítio onde nasceu


do privilégio de ver


Já falei aqui uma vez sobre a televisão e a realidade. De se poder ver coisas na televisão que não se podem ver na realidade, mesmo que se esteja ao pé delas. VER é um privilégio.

Desde há muito tempo que os castelos são construídos nos altos dos sítios. E, mesmo agora que perderam a sua função protectora, as pessoas vão lá acima para VER os arredores. E sobem a torres e compram casas com vista para aqui e para ali. O tamanho das janelas mostra a diferença entre um prédio de habitação social e de um de luxo.

Os bilhetes no teatro, futebol e outros espectáculos são, claro tanto mais baratos quanto pior se vê. E etecetera.

Assim era até aparecer o cinema e a televisão. Em que tudo é mostrado a toda a gente, do mesmo ponto de vista. Aliás: do MELHOR ponto de vista. O da câmara. E então as pessoas passaram a ver tudo: as emoções das princesas em grande plano, vistas de satélite, pisaram a Lua, desceram aos Oceanos, foram ao antigo Egipto, afundaram-se com o Titanic, viram mil maneiras de fazer amor, aprenderam a fumar e a beijar e tantas outras coisas.

Uma pessoa fica de tal forma habituada a essa democracia que não percebe como é que é possível só haver um Palácio da Pena. Ainda há muitas coisas que não podemos ver, nem mesmo num ecran. Com um ecran não se pode viver no Palácio da Pena, e é bem capaz de ser o melhor sítio do mundo para se estar. Com um ecran não veríamos a vista que se terá de lá.

Nada está democratizado, embora a câmara de filmar às vezes dê essa impressão. Mas não é mau. Afinal quase podemos ser todos um bocadinho kings of the world. Pelo menos podemos imaginar melhor como seria.

EM REDONDO!

Domingo 24 de Junho
no Centro Cultural do Redondo!
vinde... aos magotes!!

Redondo Escandinavo?


Procurei no google imagens a palavra Redondo.
















(e estas não são as únicas!!!)




Convido à contagem do número de fotos de neve que encontram na primeira página de resultados se procurarem por

Espécie de Humanos

Se olharmos para nós como um todo, as coisas sentem-se de outra maneira. Falo dos humanos enquanto espécie. Segundo sei, as espécies vivas, ao longo das suas gerações, estão em constante transformação, o que advém, principalmente, do meio ambiente onde estão e da sua forma de viver nele. Só como exemplo: os tibetanos estão mais aptos que nós para viver em altitude – mesmo que vivam ao nível do mar. A vida adapta-se às “contrariedades”, tornando-as banalidades.

Isto vem a propósito de um tema considerado fundamental: a saúde. Porque temos que comer isto e aquilo e fazer tal e coiso, se não…

De certeza que, há 150 mil anos, nenhuma pessoa queria, devia ou precisava de fazer jogging. Mas hoje em dia isso é necessário – é o que se diz. Porque os hábitos mudaram. Mas os hábitos já andam a mudar desde sempre. E isso é que nos tornou nestas criaturas que aqui vemos. A menos que queiramos a todo o custo continuar a ser iguais amanhã ao que somos hoje, não vale a pena preocupar-nos muito, porque o mundo há-de ir dar a algum lado, e não importa muito o que seja. O que se aplica em aqui é: “o que não mata, engorda”.

- trata-se de confiar plenamente na (e deixar o trabalho todo para a) chamada selecção natural -

É claro que isto é num sentido global, porque se quiserem ter as vossas egoïstices e serem super-saudáveis vocês mesmos, egoïstem-se praí, que também é fixe.


Esta placa foi posta na nave Pioneer 10, com uma mensagem desenhada para o caso da nave ser interceptada por extra-terrestres. Contém figuras de seres humanos nus e símbolos que tentam explicar a origem da nave. A nave descolou em 1972, continuou a enviar dados até 2005, nessa data encontrava-se à distância de 89,7 Unidades Astronómicas do Sol. Cada UA corresponde à distância Sol-Terra.

(o que segue é copy paste da wikipedia):
Physical properties:

Material: 6061 T6 gold-anodized aluminum
Width: 229 mm (9 inches)
Height: 152 mm (6 inches)
Thickness: 1.27 mm (0.05 inches)
Mean depth of
engraving: 0.381 mm (0.015 inches)
Weight: approx. 0.120 kilograms

VOLTOU


I feel at home whenever
the unknown surrounds me
I receive its embrace
aboard my floating house

Marôvas


A rodagem já foi.
Melhor era impossível.
O ti Zé Marôvas é o melhor.

a história foi desmistificada e contada como sendo verdadeira.
(ver comentários ao post Nesta Esquina)