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arrumações de mails... poemas antigos.


I
Cá é noite preta
dormente
reflexos de candeeiros fiéis
nos vidros das janelas fechadas corridas
e murmúrio das ondas
desabafadas.
Grilinhos tilintam as asas
e duas ou três luzes
dentro das janelas
revelam
olhos abertos
por trabalho amor ou arte.
Lá é estonteanto o calor e o sol
pernas untadas
repousam no quente da areia
e anseiam pelo
por pouco adiado banho
bilhetes de avião
levaram-nos até lá
para que agora
quando aqui é noite
se espraiem pelas praias
e se desviem da sombra das palmeiras
todas estas sensações
díspares e distantes
em características e espaço
acontecem ao mesmo tempo
no mesmo preciso instante.
e o que significa isso?
significa um tudo e um nada
porque é absoluto o facto
mas pode até ser encarado com indiferença
ou com ignorância
só que surpreende quem nisso repara e pensa

II
anda cá mau tempo
cobre-me a figura
perpassa-me por cima
como se houvesse
razão para o meu andar
assim sem dor nem
razão de sobra
mas de um cinzento
ventoso assim
bem da tua cor e fisionomia
anda cá mau tempo
defender-me dos solarengos
num dia como o de hoje


É mesmo!

Porque será que nós temos
Na frente, aos montes, aos molhos,
Tantas coisas que não vemos
Nem mesmo perto dos olhos?

-António Aleixo

Mas alguém foi?


This boy and this girl were never properly introduced to the world we live in...
They live by night  - Nicholas Ray - 1948

O contexto


Se calhar, recordarmos o passado com amor (tenha sido bom ou mau)
é uma estratégia da VIDA
para nos fazer contar histórias aos nossos descendentes
e eles ficarem mais contextualizados. 
É que o contexto é muito útil à sobrevivência.

Cor e luz

Chagall

Somos o que fazemos?


Somos o que fazemos? Hoje em dia os psicólogos gostam muito de uma coisa que é terapia comportamental. Deve ser porque somos o que fazemos. Porque sentimos o que somos quando fazemos. Já nem somos o que temos, porque todos temos de tudo, mais ou menos. Nem somos aquilo em que acreditamos, porque já não acreditamos em nada. Tal como também não somos o que sabemos, porque isso não traz felicidade a ninguém. E sejamos o que sejamos, temos é que ser felizes.

É resumir a vida ao ao presente. O que fazemos em cada momento e o que sentimos quando o fazemos. Somos o que fazemos. A memória deixa de ter importância. A experiência acumulada, as frustrações, também. Sonhos?
Mas talvez seja porque nos queremos equilibrados no dia-a-dia e porque para isso temos que esquecer tudo e concentrar-nos no caminho. "Keep calm and carry on" frase que ressuscitou dos tempos da 2ª Guerra e voltou a estar na moda.

Somos o que fazemos e temos que fazer coisas com nomes. Passear, dormir, comer, conversar. Trabalhar. Que nome darei ao que estou a fazer? Escrever, pensar, reflectir, criticar, exprimir-me, acalmar-me, conhecer-me. Que vou fazer a seguir? Alguma coisa, algo com nome, algo que exista. Nem que seja "pensar". Mas haja nome, faça-se alguma coisa. "Nada" é que não.




Claves regni caelorum

Illumination from a copy of Li livres dou santé by Aldobrandino of Siena
British Library manuscript Sloane 2435, f. 44v.

talvez

talvez a partir de agora as pessoas procurem fazer o que gostam, em vez do que o dinheiro que tinham lhes mandava fazer

Θυρεοειδής?


De há uns tempos para cá tenho sentido estranheza em estar viva. 
Assim o tipo de estranheza que dá quando dizemos muitas vezes uma palavra e ela nos soa ridícula e vazia de sentido. A vida tem-me parecido assim, embora não seja bem vazia de sentido. Não sei se é a isto que se chama "crise existencial". Não procurei este sentimento, não o provoco em mim, aliás, às vezes prefiro evitá-lo. Não é triste. Não é glorioso. Já foi mais assustador. Agora é só impressionante. Ou para usar uma palavra melhor: incrível. A vida tem sido incrível, não pelo bem ou pelo mal que faz acontecer, mas por si própria. E não entendo como alguém, incluindo eu, pode ter certezas...e tantas.


Expo 98


Comprei-a. 
Estava numa montra 
aqui em Ponta Delgada.

200$ por 1,5€
ainda não a tirei do pacote.

Em fundo, uma árvore de Goiabão

A Aposta


Freguesia da Ponta do Pargo, Calheta

Vocês sabem o que é a felicidade? Anda muita gente à procura dela, mas nem toda a gente a encontra. No entanto conhecia-se no Porto do Moniz um casal - a Tia Narcisa e o Tio Norteiro - que chegaram à muita idade sem terem tido uma zanga, por pequena que fosse. Era o casal mais feliz e amigo de toda a ilha. De toda a ilha? Ora, de todo o mundo!

Felizes eram, mas também pobres, muito pobres. E foi preciso tomar uma decisão importante para resolver o problema da pobreza. Foi preciso mesmo vender a vaquinha que eles tinham alimentado durante muito tempo. E lá foi o Tio Norteiro para os lados da Ponta do Pargo procurar comprador.

Ali chegado, um pargueiro, armado em engraçado, virou-se para o Tio Norteiro e perguntou-lhe:
- Quer trocar essa vaca por uma cabra?
E o Tio Norteiro:
- Ora, então não hei-de trocar?

E fez-se a troca, mais adiante apareceu um pastor que lhe trocou a cabra por uma ovelha. E não tardou que aceitasse trocar a ovelha por um galo. Depois, apertando-lhe a fome, vendeu um galo e comprou um pão. Regressou então a casa. Estava já o Tio Norteiro perto de casa e encontrou um vizinho que lhe perguntou:
- Então, ti Norteiro, fez bom negócio?
- Deixa-me lá, não trago um pataco furado!
E contou o que se passara. Logo o vizinho comentou:
- Ai, a ti Narcisa vai dar-lhe uma malha!
- Uma malha?! - Admirou-se o ti Norteiro.
- Com tanta asneira que fez, aposto o dinheiro da vaca em como a Tia Narcisa se vai zangar a valer!
- Bem, não sei. Como insistes, aceito a aposta, anda daí.

E à chegada a casa, o vizinho assistiu à cena:
- Então, sempre vendeste a vaca? -  perguntou a Ti Narcisa.
- Troquei-a por uma cabra.
- Foi o melhor que fizeste. Dá leite e não dá tanto trabalho.
- Mas troquei a cabra por uma ovelha.
- Ainda melhor, pois dá leite e lã!
- Olha troquei-a depois por um galo.
- Pronto, já temos com que acordar para a missa de domingo!
- Mulher, mas deu-me a fome, vendi-o e comprei um pão para comer.
- Fizeste muito bem! Não ias ficar com fome e com um galo na mão!
E o vizinho, admiradíssimo com a bondade da Ti Narcisa, de bom grado pagou a promessa e andou a contar a história a toda a gente!

em "Contos Populares das Ilhas da Madeira e do Porto Santo", José Viale Moutinho, editora Nova Delphi

sinceridade

é tão rara que pagamos por ela.

é tão boa a sensação


de se pensar que se está onde se quer estar
como se quer estar
e com quem se quer estar.

ser o oposto daquela música do António Variações.

sobretudo quando já fomos assim tal e qual como ele canta.
e também gostávamos disso.

depois das renováveis, as perenes
























separo embalagens para reciclar
e com isso gasto tempo e energia
que podia gastar a escrever manifestos
ou a fazer filmes sobre reciclar.

qualquer acção é geradora
umas numa direcção outras noutra
a preguiça é um exemplo de energia que gera situações
apesar de parecer que não gera nada de nada.

há vários tipos de energias geradoras
umas geram através do esforço: transformam
outras geram através do não esforço: limitam-se a permitir a transformação
outras ainda conseguem gerar inversamente: impedindo a transformação, levando-a por novos caminhos

por isso
o tempo é energia
o movimento é energia
um riso é energia
ou um grito
um choro
uma depressão
uma doença
uma viagem
um castigo
um trabalho
uma sesta
um abraço
uma cópula
uma flor
um som
um caminho
um campo
uma cidade
um buraco
enfim
um enfim...

mãozinhas de ouro

o Julião ainda não diz nenhuma palavra reconhecível
nem deu mais do que um ou dois passos sem ajuda
e vai fazer um ano no dia 26 de Fevereiro.



Mas não tem estado a desperdiçar o seu tempo.



ele já sabe
carregar no comando, enquanto olha para a tv
acender e apagar a luz dos candeeiros da sala

e... desenhar!


(foi a primeira composição que ocupou o quadro todo)


é um rapaz que gosta de manipular objectos...


aos mais ansiosos:
não estamos a descurar os deveres principais do Julião,
falamos muito e andamos muito com ele.
mas ele é que escolhe o que lhe interessa mais e quando.

Tradição? Folclore!





Fui ver ao cinema um filme que se chama "O primeiro choro". Uma viagem à volta do mundo num dia de eclipse, a ver como as mulheres dão à luz. Apesar de algum gosto duvidoso presente no filme, até era um filme interessante. Mais pelo que dava a conhecer do que pela forma como estava feito.

Uma das conversas recorrentes entre as mães civilizadas do filme era que era necessário parir de forma tradicional. Que desde sempre as mulheres tiveram filhos, que elas foram feitas para isso, que os hospitais são sítios horríveis e frios para se vir ao mundo neles et tout ça.

hmm mmm... ok. Quando as mulheres tinham os filhos da forma "tradicional" e morriam às dezenas e perdiam filhos e etc, descobriram uma forma de fazer nascer pessoas em que se diminuia imenso o risco de alguém morrer e andaram a fazer campanha a todas as mulheres para irem ter os filhos ao hospital.

É a história da esterilização. Quando a humanidade era muito porquinha e morriam milhares de pessoas devido à falta de higiene, inventou-se a estirilização. E hoje em dia advertem-se as pessoas que demasiada estirilização pode dar origem a alergias, entre outros males lixados.

Pffu... a humanidade porta-se sempre mal, é o que é. Ora não se lava ora desperdiça água...

E pronto, grávidas, vamos lá voltar à tradição tradicional ancestral das nossas antepassadas mulheres parideiras! Mas a qual tradição, pergunto eu!!?? À da minha avó? À da minha bisavó? À da minha minha tetravó? À da minha tataritotelavó? À da macaca primordial? À da Eva?? Se julgam que a tradição é uma coisa estanque e acabada que resolve tudo em si, não julguem. Tudo se altera, tudo se alterou ao longos dos tempos e dos lugares.

Entre nós, a tradição resultou nas maternidades (o tempo de hoje é sempre resultado do tempo de ontem), e pelos vistos agora está a mudar para uma coisa mais caseira e íntima, menos rígida e mais ao gosto da mulher actual. É UMA COISA ACTUAL e não tradicional. Até porque tradicional não quer dizer nada... é como as danças dos ranchos folclóricos. São tradicionais? Não. São inspiradas numas coisas que houve durante uns tempos lá nuns sítios. Com umas roupas lavadinhas e engomadinhas e de lindas cores artificiais que nunca houve umas assim antes de hoje! No fundo são coisas de agora e pronto.

adaptações


Ontem, estava a pensar enquanto lavava a loiça.
(Sabem quais são as mulheres que pensam mais? - Pois é, embora não pareça)
E enquanto pensava percebi que há uma coisa que não gosto nada e acho mesmo que é um desperdício de energia. Essa coisa são as

ADAPTAÇÕES

prefiro bem mais as

INVENÇÕES.

Ainda ponderei sobre as adaptações às circunstâncias, mas é evidente que também prefiro as invenções às circunstâncias.

Mas as adaptações que odeio mesmo mais são as adaptações literárias e as adaptações cinematográficas. Blergh...

às vezes

o estado enervado de uma pessoa aumenta a um ponto que quase parece sem retorno
outras vezes a preguiça deixa cada músculo do corpo e da mente num estado que parece eternamente vegetativo

mas na maior parte do tempo estamos semi-rígidos, semi-activos, parcialmente atentos, moderadamente confusos, um pouco cansados mas com forças para continuar; capazes de sorrir e de censurar, de esquecer e de lembrar, sem ressentimentos à flor da pele e sem gratidões especialmente sentidas.

essa maior parte do tempo esvai-se sem que nos recorra em lembranças mais tarde.
essa maior parte do tempo é a vida.

e ela é a resposta para estas perguntas da Björk:

"His embrace, a fortress
It fuels me
And places
A skeleton of trust
Right beneath us
Bone by bone
Stone by stone
If you ask yourself patiently and carefully:
Who is it ?
Who is it that never lets you down ?
Who is it that gave you back your crown ?
And the ornaments are going around
Now they're handing it over
Handing it over
He demands a closeness
We all have earned a lightness
Carry my joy on the left
Carry my pain on the right
If you ask yourself patiently and carefully:
Who is it ?
Who is it that never lets you down ?
Who is it that gave you back your crown ?
And the ornaments are going around
Now they're handing it over
Handing it over"