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arrumações de mails... poemas antigos.


I
Cá é noite preta
dormente
reflexos de candeeiros fiéis
nos vidros das janelas fechadas corridas
e murmúrio das ondas
desabafadas.
Grilinhos tilintam as asas
e duas ou três luzes
dentro das janelas
revelam
olhos abertos
por trabalho amor ou arte.
Lá é estonteanto o calor e o sol
pernas untadas
repousam no quente da areia
e anseiam pelo
por pouco adiado banho
bilhetes de avião
levaram-nos até lá
para que agora
quando aqui é noite
se espraiem pelas praias
e se desviem da sombra das palmeiras
todas estas sensações
díspares e distantes
em características e espaço
acontecem ao mesmo tempo
no mesmo preciso instante.
e o que significa isso?
significa um tudo e um nada
porque é absoluto o facto
mas pode até ser encarado com indiferença
ou com ignorância
só que surpreende quem nisso repara e pensa

II
anda cá mau tempo
cobre-me a figura
perpassa-me por cima
como se houvesse
razão para o meu andar
assim sem dor nem
razão de sobra
mas de um cinzento
ventoso assim
bem da tua cor e fisionomia
anda cá mau tempo
defender-me dos solarengos
num dia como o de hoje


Cor e luz

Chagall

Recolhas


"Olhei para o sol e vi que não tinha cara, olhei para a lua e vi que tinha olhos e boca." 

Julião Agostinho, dia 11 de Fevereiro de 2012, Biblioteca de São Roque do Pico

recolha de Fernando Nunes, poeta aqui 

http://atenasgavetascresceanis.blogspot.pt/

O Experimentar


ouvir e comprar o disco aqui

Folhas, flores, frutas de ouro

E eu, açorianinha emprestada,
dizia "em tipo de gozar"
que desde que aqui vivia
na limpidez/bruma (é à vez)
o continente me parecia todo bege.

Aqui o mar e céu azuis
a pedra preta
as plantas verdes.

azuuul
preeto
veeerde

e chegava lá,
era logo do avião que se via
que aquilo era tudo bege.

Até o alcatrão e o branco das casas amarelecia de pó.

Mas foi com a canção de há 2 posts atrás que se me fez luz.

Não é bege, é de ouro.
O pó não é poeira
é feldspato. É mica.

Pó de fada.

"Meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de ouro"

Expo 98


Comprei-a. 
Estava numa montra 
aqui em Ponta Delgada.

200$ por 1,5€
ainda não a tirei do pacote.

Em fundo, uma árvore de Goiabão

Rabo de Peixe


Hoje fui a rabo de peixe filmar rabo-peixenses e foi lá que descobri as pessoas mais simpáticas e dedicadas do mundo inteiro. Se virem jogos de futebol no campo de Rabo de Peixe, reparem nos apanha-bolas. Têm coletes que dizem "Wembley Stadium", porque foi o Burrica que os trouxe de lá quando viveu em Inglaterra, durante quatro anos. Ele não os comprou, mas ofereceu-os todos :)

Os cartazes da CDU

Hoje vi aqui na Horta (no largo do Infante) o cartaz de um candidato da CDU, com a parte de baixo ao sol quase poente e a parte de cima à sombra de uma árvore, tal como são as sombras das árvores que deixam passar o sol entre as folhas. Essa imagem aqueceu-me o espírito. Mas ia de carro e logo pensei noutras coisas.


Agora à noite, recapitulando as coisas boas do dia, voltou e imagem e percebi o porquê: no Redondo, no largo, à sombra dos plátanos havia os cartazes da CDU. Não tenho nenhum amor especial pelo comunismo, mas tenho um amor muito grande aos plátanos do Redondo. E ao largo do Redondo, que é um verdadeiro largo. O largo do Infante é estreitinho, ao contrário da visão do homem que lhe deu o nome.

A "cataplasma"

Novembro, 17 (1838)
A maneira de comer a bordo de um navio fruteiro de S. Miguel em dias de mau tempo, desconserta tristemente quem estiver habituado ao uso de talheres de prata.

A expressão habitual designativa do almoço, do jantar, do chá e e da ceia é "ir buscar a comida", perífrase que à maravilha define o cerimonial em uso.

O compartimento em que tal obrigação se desempenha é suficientemente amplo para quatro pessoas, e tem, à guisa de mesa, uma cómoda quadrada, provida de asas. Devido ao tempo borrascoso que tem feito, torna-se necessário, antes de pôr a mesa, pregar-lhe a "cataplasma" (como diz o capitão), isto é, torcer em longo rolo qualquer peça de vestuário desgarrada que por ali se encontre à mão, um casaco impermeável, ou capote de lã, p. exemplo; depois, dispô-lo em ziguezague sobre a mesa, cobrindo o rolo com um pedaço de vela, a modo de toalha, e formando a sotavento uma grande protuberância para proteger a loiça no caso de balanço forte. Finalmente, a fim de manter a "cataplasma" no devido lugar, é esta fixa por um pedaço de fio de corda enlaçado por sobre a mesa, e atado aos puxadores das gavetas.

O despenseiro, designação pomposa dada a um rapaz sebento, enfarruscado e jovial, prepara o almoço, apertando entre as anfractuosidades da "cataplasma" as chávenas, os pires e as tijelas, para evitar que caiam e se depedacem; enche de biscoito o cabaz do pão e coloca-o firme no meio da mesa, escorando-o com um bule e com pão duro; em seguida, entala nos sítios convenientes o manteigueiro de manteiga de Cork, um bocado de carne salgada, um açucareiro de açúcar mascavado, enfeitado com torrões da mesma substância branca; arremessa para a mesa um molho de colheres de estanho e outro de garfos e facas novos e embotados e depois retira-se para preparar o chá.

Suponhamos que o chá está pronto e que o bule ficou estivado com o bico para barlavento; tanto que o encarvoado moço de novo aparece com uma caçarola de ovos, enorme vaga invade o navio; este entra em balanço forte para sotavento e com o balanço tentamos segurar as xícaras aos pires, segundo-se porém indescritível caos entre todos os utensílios indispensáveis ao almoço: o bule extravasa o chá por sobre o manteigueiro; entorna-se o leite; o pão fica ensopado; e porque deixaram a escotilha aberta, desabam sobre as nossas cabeças vários baldes de água dos grossos mares entrados a bordo. O capitão pragueja, o criado põe de lado os ovos, em busca do balde e da rodilha; os passageiros levantam os pés para se livrarem da água salgada que já encharcou os mochos, as botas e as extremidades dos capotes e continua a enlamear e a gorgolhar no sobrado do camarote; o homem do leme resmunga, rabujento, - "Sim, senhor" - à ordem ainda mais azeda do capitão - "Aguenta-o firme".

Ao jantar os preparativos são mais ou menos os mesmos do almoço.

O capitão não era nenhum gastrónomo.

A carne salgada é trazida numa celha de madeira até à porta da sala de jantar, onde a cortam em duas partes iguais.

Metade volta para cima pela escotilha na mesma celha para consumo da tripulação; a outra metade punha-se em fundo tacho para a mesa da câmara. Vinha então o infalível prato de bordo, de couves com gordura, cenouras esbranquiçadas e batatas com casca. Postas todas as iguarias na mesa, seguia-se a tarefa de averiguar o paradeiro do capitão. Chegado este, quando a comida começava já a arrefecer, verificava-se que não estavam na mesa nem os garfos, nem as facas e que também faltava a mostarda. E porque o saca-rolhas ficara esquecido na gaveta, tornava-se necessário desmanchar a "cataplasma", levantar a mesa e voltar a pô-la.

Arrancada a rolha, tiravam-se os copos do armário, ainda com os restos do vinho da véspera, a secar. "Cozinheiro, cozinheiro!" e os copos eram entregues pela escotilha com a recomendação: "não se lavam agora com água doce", aviso este que o forte gosto a água salgada na borda do vidro logo indicava haver sido fielmente cumprido. A ceia era como o almoço repetido à luz das velas.

................

Joseph e Henry Bullar em "Um inverno nos Açores e um verão no vale das furnas" traduzido do inglês por João Hickling Anglin - Edição do Instituto Cultural de Ponta Delgada - Ilha de S. Miguel - Açores, 1986

Inquisição

Ainda existe este sentimento, entre nós. Resquícios do anti-semitismo?

"A suspeita de cristã-novice recaía, com frequência, sobre quantos alcançavam sucesso nos seus empreendimentos, privilegiando-se, socialmente, aqueles que mantinham estilos de vida ociosos e perdulários contrários à mentalidade capitalista emergente."

in "Indiferentes à Diferença - Os Judeus nos Açores nos sécs. XIX e XX" de Fátima Sequeira Dias

pico gelado

Na Madalena do Pico há uma gelataria de gelados daqueles que são feitos lá.Quando se vai daqui ao Pico, tendo tempo, come-se um gelado da gelataria.Há umas semanas fui ao Pico. Tive tempo e comi um. Estava bem bom. Quando ia apanhar a lancha para voltar para o Faial passei outra vez em frente à gelataria a tempo de ouvir esta conversa assim, nítida, quase de propósito para eu a ouvir: um senhor chegou, pôs os cotovelos no balcão e disse para as três senhoras que estavam lá dentro:
- Com que então não gostaram dos gelados da Santini??

E elas, pareciam ensaiadinhas, abanaram a cabeça com muita convicção e puseram os olhos em baixo:

- Não!!!

 Segui caminho, sem ouvir mais nada, para não estragar esta história perfeita.

O Verão é tempo grande



tive saudades e voltei para aqui :)
até já

o desenho é da Maria Keil

(8)

as ilhas são lagos de terra num continente oceânico

é tão boa a sensação


de se pensar que se está onde se quer estar
como se quer estar
e com quem se quer estar.

ser o oposto daquela música do António Variações.

sobretudo quando já fomos assim tal e qual como ele canta.
e também gostávamos disso.

procurem nas vossas costas


garrafinha garrafinha
na crista da espuma
salta pocinha
por enquanto és só uma
.
outras seguirão
por esse mar afora
do tomás, do julião
e também da aurora

Estar Atento

Andar com a cabeça levantada.
Há notícias no vento e na luz
Informações nas esquinas
Ideias se revelam nos voos das aves

Dois sorrisos de velhotas
Um reflexo na água onde mergulha o caranguejo
O motor de um avião ao longe
Uma bicada de ave perdida na porta da cozinha

Pedras que absorvem água
Pedras que boiam
Vulcões adormecidos
Barcos com gambiarras festivas no escuro

Riscos de chuva à frente da árvore
Lagartixas de rabo cortado que são mais ariscas
Cães que uivam às ambulâncias
Malucos que riem nos caixotes do lixo

é maravilhoso
estar atento.

little life in colors


são girinhas não são? e podem ver todas em grande aqui neste álbum do flickr.

fresquinhas do mercado!

duas senhoras encontraram-se há 15 minutos à minha frente no mercado da horta
tinham os seus setenta anos...

uma delas, cabelos brancos bem penteados e baton vermelho diz à outra, mal a vê (mais gordinha, de óculos e caracóis cinzentos):
-esta noite sonhei que estava mais umas do nosso tempo numa festa num género de teatro fayalense. e também estavas lá tu!
-ai sim? todas nos teatros?
-não, tu estavas muito zangada por causa de não sei quê...

não pude ouvir mais...

as velhinhas - vi mais para além destas, por isso sei do que estou a falar - nesta manhã cinzenta estavam todas muito bonitas. as roupas delas têm texturas e padrões que ficam lindamente com estes dias.